Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — As Olimpíadas de Inverno Milano‑Cortina 2026 prometem mais do que cronômetros e recordes: apresentam‑se como um palco onde o desenho e a identidade nacional encontram os ritmos do espetáculo contemporâneo. Em um país que faz do design italiano uma forma de afirmação cultural, as delegações chegam vestidas com projetos que dizem tanto sobre imagem quanto sobre performance.
Na casa dos anfitriões, a assinatura não poderia ser outra: EA7 by Giorgio Armani. A escolha do branco absoluto é leitura consciente — homenagem às cimeiras nevadas e ao ideal de pureza que o esporte ainda invoca. As peças exibem cortes sartoriais, aplicações em 3D e um detalhe simbólico: o texto do Inno di Mameli estampado no interior das jaquetas. É uma proposta que traduz o minimalismo em prestígio, uma narrativa de identidade nacional costurada na roupa.
Do outro lado do Atlântico, Ralph Lauren celebra uma relação longa com os Jogos — será sua décima participação — apostando no heritage americano. Para a cerimônia de abertura, a casa revisita o “branco invernal” com casacos de lã e suéteres bordados, enquanto a cerimônia de encerramento recorre a um ski‑vintage anos 1990 em color block. É o soft power do estilo préppy traduzido para o espetáculo olímpico.
Quem tem ganhado destaque nas redes sociais é Goyol Cashmere. As designers Michel & Amazonka reinterpretaram o deel mongol em chave contemporânea, usando cashmere e seda de elevado padrão artesanal. O resultado é menos vestimenta esportiva e mais objeto de artesanato — uma lembrança de que as roupas olímpicas também são veículos de memória cultural.
A França opta por uma nostalgia refinada: Le Coq Sportif produz uma paleta em tons polvilhados — azul gelo e creme — com uma releitura do tricolor em efeito “verniz spray”, quase topográfico. A Inglaterra, por sua vez, com Ben Sherman, combina tecnicidade com verniz britânico; curiosamente, o campeão e ativista Tom Daley contribuiu com acessórios feitos à mão, um gesto que aproxima iconografia nacional e artesanato pessoal.
Outras escolhas merecem registro por sua variedade de leitura cultural e tecnológica: o Canadá com Lululemon amplia a folha de bordo até um macro‑motivo em tecidos termorreguladores que se convertem em travesseiros de viagem; o Brasil com Moncler leva o luxo técnico para um branco e avório que dialogam com a alta moda; a Austrália, por meio da Sportscraft, mistura memória e cerimônia ao estampar nomes de olimpianos históricos na forração; a Noruega, fiel à tradição, vê a Dale of Norway reafirmar o valor simbólico dos suéteres em lã com motivos geométricos clássicos.
Mais do que estética, essas escolhas dizem respeito a como as nações querem ser vistas: como herdeiras de uma tradição, como laboratórios tecnológicos, ou como guardiãs de saberes artesanais. As roupas olímpicas funcionam como sinais — e, em Milano‑Cortina, esses sinais estarão expostos para um público global que confere às imagens tanto importância quanto o resultado no placar.
Num evento onde a cidade anfitriã é também curadora de imagem, a costura entre moda e esporte evidencia um fenômeno maior: o espetáculo esportivo contemporâneo recorre à aparência para narrar suas próprias memórias e ambições. Veremos, nas próximas semanas, as pistas transformarem‑se em corredores onde a história nacional desfilaria com seus trabalhos traçados à vista.






















