Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Milano Cortina, 12 de fevereiro de 2026.
Em um gesto de forte carga simbólica dentro da pista de Cortina d’Ampezzo, os slittinistas ucranianos da equipe de revezamento mostraram seus capacetes brancos e se ajoelharam ao cruzar a linha de chegada, declarando publicamente apoio ao colega Vladyslav Heraskevych, recentemente squalificato pelo Cio (Comitê Olímpico Internacional) por exibir num capacete os rostos de atletas ucranianos mortos na guerra.
“Não é uma protesta. Queremos apenas mostrar o nosso supporto a Vladyslav Heraskevych”, afirmou o lugueiro da seleção de Kiev, Andriy Mandziy, ao explicar a ação. Mandziy, com a compostura de quem mede palavras e memórias, lembrou que a iniciativa teve consulta prévia com a Federação Internacional e que a equipe recebeu autorização para o gesto: “Antes conversamos com a Federação internacional, perguntamos e nos disseram que podíamos fazê-lo”.
O episódio não é apenas uma disputa disciplinar; é um nó entre memória, ética e as normas que regem os eventos olímpicos. A suspensão de Heraskevych decorre de uma interpretação rígida das regras do Cio sobre manifestações políticas e simbolismos nos equipamentos oficiais. Para os atletas ucranianos, entretanto, o capacete com os rostos dos mortos não é manifesto político tradicional, mas lembrança de companheiros e amigos — um ponto que Mandziy tornou pessoal: “Um dos atletas mortos era meu amigo e estudamos juntos na Universidade”.
No curto prazo, a atitude dos atletas ucranianos tem impacto simbólico imediato: transformar a pista em um espaço de luto coletivo e de insistência pela humanização das decisões esportivas. No médio prazo, coloca novamente em debate a fronteira entre expressão individual e regras institucionais num evento cujo princípio declaratório é a neutralidade política. O caso de Heraskevych, e agora o ato de solidariedade dos colegas, expõe a dificuldade do esporte moderno em separar o rito competitivo das tragédias que atravessam as sociedades.
As reações oficiais ainda se delineiam. Do ponto de vista jurídico-disciplinar, resta saber se o Cio manterá a medida ou se as tratativas entre federação e equipe abrirão caminho para uma reavaliação. Mandziy deixou claro que “se o Cio fez a coisa certa ou não, vamos ver nos próximos dias”, frase que resume a ambiguidade institucional: a regra existe, mas a memória pede exceções.
Em Cortina, enquanto os resultados esportivos seguem seu curso, o episódio lança uma pergunta mais ampla sobre o papel dos grandes eventos esportivos como palco de lembrança e contestação. O gesto dos slittinistas ucranianos encontra eco além do gelo: lembra que atletas carregam histórias e que, em certos momentos, a competição se subordina à necessidade de nomear e não esquecer.
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