Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A edição dos Jogos Invernais de Milano‑Cortina se anuncia como uma síntese de rupturas institucionais e continuidades simbólicas: é a Olimpíada das primeiras vezes, das geografias conjugadas e dos recordes nacionais. Mais do que um evento esportivo, representa uma operação logística e cultural que põe lado a lado cidade e montanha, tradição e espetáculo contemporâneo.
Pela primeira vez, os Jogos ocorrerão oficialmente em duas localidades-sede principais e dispersarão suas cerimônias e provas por dois ambientes muito distintos — a metrópole de Milano (com a cerimônia de abertura anunciada no estádio de San Siro) e a indômita arquitetura alpina de Cortina d’Ampezzo (que, não por acaso, volta a ser palco olímpico após 1956). Essa dicotomia confirma um caráter híbrido, entre o urbano e o montanhoso, que redesenha a percepção do inverno esportivo na Itália.
Haverá ainda distinções institucionais inéditas: cerimônia de abertura e de encerramento em localidades diferentes (Milano e Verona), dois bracieri acesos, provas distribuídas em duas regiões administrativas e em duas províncias autônomas. A cerimônia de abertura paralela e as “capsules” em Livigno e Predazzo ilustram uma estratégia de descentralização que, embora pragmática, tem implicações simbólicas: multiplicar palcos é também democratizar a visibilidade do esporte em territórios diversos.
Nos números, o fenômeno é igualmente notável. O Team Italia partirá com 196 atletas (103 homens e 93 mulheres), novo recorde que supera o total de Torino 2006 (184). A delegação se aproxima da paridade de gênero: 47,4% de atletas são mulheres, a maior participação feminina da história italiana em Jogos Invernais — contra 40,8% em 2006, 39,5% em Pequim 2022, 39,3% em Pyeongchang 2018 e 38,9% em Sochi 2014.
Na ponta etária, a mais nova integrante é a esquiadora alpina Giada D’Antonio, de 16 anos; o veterano é Roland Fischnaller, 45 anos, especialista no slalom gigante paralelo do snowboard. Esses extremos expressam uma tradição desportiva que se renovou sem perder a continuidade intergeracional, uma característica relevante da formação atlética italiana.
As escolhas para portar a bandeira refletem essa conjunção de história e modernidade: Arianna Fontana (short track) e Federico Pellegrino (esqui de fundo) irão representar a Itália na parada de Milano; em Cortina, desfilarão Federica Brignone (esqui alpino) e Amos Mosaner (curling). A distribuição simbólica das figuras reafirma a multiplicidade territorial do evento.
Ao todo, atletas de 92 nações (94 nacionalidades contabilizadas) competirãono torneio — com estreias na neve e no gelo de Benin, Guiné‑Bissau e Emirados Árabes Unidos. Rússia e Bielorrússia não competem sob suas bandeiras, presentes apenas como “atletas neutros individuais” em consequência das suspensões dos seus comitês olímpicos. Estima‑se a participação de cerca de 2.900 atletas.
Serão disputadas 195 provas com medalhas em jogo: 245 de ouro, 245 de prata e 245 de bronze nos Jogos Olímpicos; 137 de ouro, 137 de prata e 137 de bronze nos Jogos Paralímpicos — totalizando 1.146 medalhas. As peças foram concebidas com 80 mm de diâmetro e 10 mm de espessura: a medalha de ouro contém 500 gramas de prata revestida por 6 gramas de ouro; a de prata 500 gramas de prata; a de bronze 420 gramas de cobre. Materiais e pesos falam também de escolhas simbólicas e patrimoniais, que dialogam com o valor material e psicológico do prêmio.
Além das sedes centrais, o guarda‑chuva logístico inclui localidades tradicionais do inverno italiano: Anterselva (biathlon), Cortina (curling e eventos na neve), entre outras pistas e centros de competição distribuídos entre Lombardia, Veneto e Trentino‑Alto Adige. A opção por Verona como palco de encerramento e pela Arena de Verona — património UNESCO — para a abertura das Paralimpíadas amplia o escopo patrimonial do evento e faz da Olimpíada um gesto cultural além do esportivo.
Em termos históricos e sociais, Milano‑Cortina 2026 é ao mesmo tempo reiteração e reinvenção: repete a vocação italiana de hospedar grandes eventos, mas o faz com arranjos invisíveis até aqui — múltiplas sedes, repartição de cerimônias, forte presença feminina e estreias de países que desafiam o mapa tradicional dos esportes de inverno. Para o observador atento, isso não é apenas estatística; é um sinal dos sentidos que o esporte público assume em tempos de descentralização, visibilidade e memória compartilhada.
Esses Jogos, afinal, medem também a capacidade institucional de conciliar logística, patrimônio e narrativa nacional — um teste que ultrapassa a bilheteria e os cronômetros e entra nas colunas da história cultural italiana.






















