Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
O segundo dia de competições em Milano Cortina 2026 confirmou o caráter multifacetado que as Olimpíadas de Inverno exercem sobre a memória coletiva esportiva: eventos simultâneos, gestos individuais de superação e decisões institucionais que reverberam além das pistas. Em foco estiveram o biathlon, o snowboard, o skeleton e, novamente, o curling, cuja trajetória recente da seleção italiana merece atenção como expressão de uma cultura esportiva em consolidação.
Em Lago di Tesero, a prova começou com a presença do romeno Paul Pepene. O eslovaco Jiri Tuz, com desempenho positivo na sprint, liderava aos 1,8 km, mostrando que as corridas de fundo mantêm a imprevisibilidade tática típica da disciplina. A prova de 10 km técnica livre masculina contou com a participação dos atletas italianos, que tentam traduzir tradição em resultado nas pistas de fundo.
No curling, a equipe azzurra segue uma narrativa de afirmação. Depois de eliminar, na estreia, os campeões olímpicos suecos liderados por Niklas Edin, o time comandado por Joel Retornaz derrotou os britânicos de Bruce Mouat por 9 a 7. Foi um encontro que ilustrou bem a combinação entre técnica e controle emocional: o penúltimo arremesso de Retornaz foi executado com precisão cirúrgica, removendo pedras adversárias quando a partida ainda estava em aberto, e consolidando a vitória italiana.
No snowboard cross feminino, a italiana Michela Moioli viveu uma tarde de recuperação. Apesar de uma queda em treino prévio, Moioli completou a qualificação com o 6º melhor tempo e se classificou para as oitavas de final — sua declaração foi sintomática do espírito com que se encara a Olimpíada: “O importante é estar aqui inteira, me colocaram em ordem. Tenho alguns arranhões, mas o importante é competir, me divertir e dar o máximo. Não estou 100%, mas sou o que sou e está bem assim.”
Também avançaram na qualificação as compatriotas: Sofia Groblechner terminou em 18º, e Lisa Francesia Boirai em 20º — esta última garantindo a última vaga para evitar a segunda manche. A lista de classificação da primeira manche mostrou nomes como Adamczykova (CZE) e Casta (FRA) no topo, com Moioli entre as melhores do pelotão.
Em âmbito disciplinar e jurídico, a notícia mais sensível para o esporte italiano foi a reabertura do caso da biatleta Rebecca Passler. A Corte Nazionale d’Appello di Nado Italia acolheu o recurso apresentado por Passler contra a suspensão provisória decorrente do achado de letrozolo num controle de 26 de janeiro. O tribunal reconheceu o fumus boni iuris — isto é, uma aparente plausibilidade de que a ingestão foi involuntária ou resultado de contaminação — e determinou sua reentrada no grupo a partir de segunda-feira, dia 16. A atleta, de 24 anos, natural de Anterselva e integrante do Centro Sportivo Carabinieri, agradeceu a advogados, à Federação Italiana Sport Invernali e aos familiares e declarou que poderá, enfim, concentrar-se plenamente no biathlon.
O episódio de Passler acende uma luz sobre as tensões atuais entre combate ao doping e a presunção de inocência em processos esportivos: é uma zona onde evidência científica, procedimentos administrativos e narrativa pública se confrontam. Para o público e para a instituição esportiva, a decisão reforça a necessidade de protocolos rigorosos de rastreio de contaminações e de defesa técnica para os atletas.
Em resumo, o dia em Milano Cortina 2026 trouxe resultados que se interpretam tanto no escopo das competições quanto na esfera mais ampla do que o esporte simboliza: identidade regional, redes de proteção ao atleta e a capacidade de transformar pequenos episódios em lições para a organização das práticas esportivas nacionais.




















