Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No coração do inverno olímpico, a presença dos voluntários funciona como uma ponte entre épocas e memórias. É isso que simboliza a história de pai e filho protagonizada por Stefano Covi, 65 anos, recém-aposentado, que, ao lado da mulher Lorena, presta serviço no estádio de esqui de fundo da Val di Fiemme durante os eventos nórdicos dos Jogos de Milano Cortina 2026.
Setenta anos separam duas edições italianas dos Jogos de Inverno: Cortina 1956 e a atual. Para a família Covi esse intervalo não é apenas numérico, é vivido como continuidade. Carlo, pai de Stefano e figura central dessa narrativa, foi um dos voluntários de 1956. Professor de educação física, foi também um dos primeiros instrutores de esqui do país — inscrito como instrutor número 201 — e durante 35 anos organizou cursos de inverno para crianças no Monte Bondone. Além disso, atuou como treinador de atletismo e, em 1956, havia sido convocado para prestar assistência nas pistas de Cortina. Carlo faleceu em 1988, mas a presença dele no imaginário da família permanece viva.
“É bonito pensar que exista esse vínculo olímpico”, diz Stefano Covi, o mais jovem entre nove irmãos. Para ele, a oportunidade de ter os Jogos “em casa” foi decisiva para apresentar a própria candidatura como voluntário. Com a função de “event service”, o casal ajudará os espectadores durante as duas semanas de competições, cumprindo cerca de dez turnos no total.
O relato de Stefano oferece mais do que um dado anedótico: revela a dimensão cultural do voluntariado esportivo na Itália. Voltar a servir — agora em uma infraestrutura modernizada, sob o signo de uma Olimpíada coorganizada por duas cidades e por regiões com histórias distintas — significa também reconstruir e atualizar uma tradição cívica que age tanto sobre o presente quanto sobre a memória coletiva.
Observar este reencontro entre gerações permite refletir sobre como os grandes eventos esportivos funcionam como rituais de identidade. Está em jogo não só a logística dos competições, mas a afirmação de laços comunitários, a transmissão de saberes e a manutenção de uma narrativa que conecta territórios como o Vale de Fiemme, Cortina d’Ampezzo e o Monte Bondone ao projeto maior do esporte italiano no século XX e no século XXI.
Para muitos voluntários, tal como para Stefano e Lorena, a participação é também uma experiência de pertencimento: colaborar com o público, orientar, garantir que a festa esportiva ocorra com segurança e cordialidade. É uma forma de transformar o evento em algo coletivo — uma celebração que, na prática, dura muito além das cerimônias oficiais e fecha um ciclo de 70 anos que começou nas encostas de Cortina.
Em termos humanos e simbólicos, a presença de famílias como a dos Covi lembra que os Jogos não são apenas grandes palcos de competição. São, também, locais de memória — onde o trabalho voluntário traduz respeito pela história e aposta no futuro.






















