Milano Cortina 2026 segue como espelho das tensões e das esperanças que atravessam o esporte italiano contemporâneo. Entre resultados imediatos e questões institucionais, o dia trouxe vitórias que reforçam uma narrativa de crescimento — com a Itália conquistando o ouro no short track misto e assegurando um bronze no duplo misto do curling — e sinais de atenção sobre a logística que circunda um evento dessa magnitude.
Em paralelo aos pódios, cresceu a expectativa para a prova de velocidade: o SuperG é apontado como uma das etapas mais aguardadas, tanto pela presença de nomes consagrados quanto pela capacidade do formato de traduzir velocidade e nervo em drama coletivo. O dia promete ser uma prova de contraste entre momentos de brilho individual e os reflexos organizacionais que um grande evento provoca na vida cotidiana.
Do ponto de vista institucional, a Comissão di Garanzia sobre greves já lançou um alerta ao Ministério das Infraestruturas e dos Transportes. A autoridade destacou o risco de graves perturbações à mobilidade associadas às greves do transporte aéreo convocadas para 16 de fevereiro e 7 de março, datas que coincidem com as competições dos Jogos. Para mitigar impactos sobre a circulação de atletas, equipes e público, a Comissão sugeriu transferir as ações de protesto para um intervalo alternativo, entre 24 de fevereiro e 4 de março, quando não há provas olímpicas agendadas.
Há, finalmente, a dimensão humana que atravessa essas Olimpíadas: a figura de Alessandro Pittin. Aos 36 anos — idade que celebra precisamente hoje —, Pittin representa algo mais que a trajetória de um atleta: é edição viva da história italiana na combinada nórdica. Medalhista de bronze em Vancouver 2010, ele permanece como o único italiano a subir ao pódio olímpico nessa disciplina. Milano Cortina 2026 marca a sua sexta participação olímpica, da estreia em Torino 2006 até o que ele mesmo define como a provável última aparição numa carreira longa e entregue a uma modalidade de difícil visibilidade.
Na estrutura de Predazzo, no Ski Jumping Stadium, a prova masculina de combinada nórdica formato NH Gundersen terá três representantes italianos: Samuel Costa, Aaron Kostner e o veterano Alessandro Pittin. Esses nomes sintetizam o equilíbrio entre renovação e memória esportiva: Costa e Kostner como possibilidades de futuro, Pittin como referência e testemunha de duas décadas de transformações.
Também de natureza institucional é a visita do Presidente da República, Sergio Mattarella, a Cortina. Hoje e na quinta-feira, o chefe de Estado acompanhará competições e terá um encontro com os atletas no vilarejo olímpico, incluindo um almoço institucional em Casa Italia com a presença dos dirigentes do CONI. A presença presidencial adquire significado além da cortesia: é um gesto de afirmação do esporte como espaço de representação nacional e de vínculo entre instituições e práticas coletivas.
Do ponto de vista analítico, os episódios do dia — vitórias, avisos sobre mobilidade e a simbólica presença do Presidente — compõem um retrato fiel dos Jogos: uma mistura de performance e logística, de memória pessoal e decisão pública. A vitória no short track misto e o bronze no duplo misto do curling confirmam que a Itália não apenas celebra momentos isolados, mas constrói uma presença competitiva diversificada; ao mesmo tempo, as questões sobre greves mostram que grandes eventos são igualmente frágeis diante de problemas sistêmicos de infraestrutura e política laboral.
Milano Cortina 2026 segue, assim, sendo lida como obra em construção: cada medalha compõe um fragmento, cada decisão institucional altera o enquadramento e cada despedida de um atleta como Pittin reconfigura a memória coletiva do esporte italiano. Cabe aos observadores e às organizações transformar resultados imediatos em legado duradouro — esportivo, social e institucional.





















