Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
No Fórum de Assago, lotado como em noites históricas do esporte italiano, assistimos a uma virada que cabe tanto à crônica de um evento quanto à análise do que o esporte revela sobre expectativas, símbolos e as fragilidades humanas. A prova individual de patinação artística, que muitos aguardavam como a consagração de Ilia Malinin, transformou-se em um episódio de queda — literal e simbólica — e em uma vitória da resiliência de um outsider: o cazaque Michail Shaidorov.
A narrativa era simples e quase pronta para o clichê do triunfo absoluto. O jovem norte-americano, conhecido por sua capacidade de elevar-se a cerca de 80 centímetros do solo nos quadruplos, chegava a Milano Cortina 2026 com aura de imbatível. Em vez disso, encontrou o inesperado: erros incomuns e quedas que lhe custaram um resultado que poucos poderiam prever — o oitavo lugar — e um momento de choro em que a frustração deixou visível o peso das expectativas.
Quem soube aproveitar o vazio deixado pelo favorito foi Michail Shaidorov. Com elementos potentes e execução limpa, ele capitalizou a oportunidade e terminou com 291.58 pontos no total, incluindo um belo programa livre avaliado em 198.64. A performance do cazaque, longe de ser obra do acaso, foi a síntese de uma trajetória que mistura ousadia técnica e controle emocional, dois ingredientes decisivos quando o favoritismo se quebra.
O vice-campeão foi o japonês Yuma Kajiyama, que também sofreu com a tensão típica dos Jogos: uma queda manchou sua apresentação. Curiosamente, o staff de Kajiyama conta com uma figura central na memória da patinação italiana, Carolina Kostner, cuja presença aponta para as redes transnacionais de conhecimento técnico e simbólico no esporte contemporâneo.
Entre o público, olhos curiosos e celebridades: a ginasta americana Simone Biles estava nas tribunas, lembrando que os grandes espetáculos olímpicos cruzam modalidades e gerações. As notas finais e a execução fizeram do evento um lembrete de que a patinação artística é, simultaneamente, espetáculo e máquina de expectativas — onde a falha técnica ganha conotações quase míticas quando recai sobre quem era visto como intocável.
Do ponto de vista cultural, a noite em Assago confirma uma dinâmica recorrente no esporte moderno: atletas construídos como heróis técnicos podem sucumbir ao peso de uma narrativa construída por mídia, patrocinadores e uma opinião pública ávida por símbolos. A queda de Ilia Malinin não apaga sua importância técnica nem seu potencial, mas reorienta o debate: como as estruturas em torno do atleta gerenciam — ou não — as demandas psicológicas em momentos decisivos?
Para o público italiano e europeu, a lição é dupla. Primeiro, a emoção legítima de ver um outsider subir ao trono olímpico. Segundo, a lembrança de que os ídolos são, antes de tudo, seres sujeitos a limites. A patinação artística em Milano Cortina ofereceu, assim, um espetáculo de contradições: técnica e falha, expectativa e acaso, brilho e fragilidade — tudo junto, no mesmo gelo.
O evento seguirá sendo decantado nas próximas horas e dias: análises técnicas, entrevistas e a possível reconfiguração de olhares sobre jovens talentos e seus ambientes de preparação. Para agora, fica a imagem — difícil de apagar — do favorito no chão, e de um novo rei olímpico que soube, no momento certo, transformar uma queda coletiva em própria ascensão.
Foto: arquivo e cenas do Fórum de Assago; público e pódio em destaque.





















