Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No Milano Cortina 2026, a Itália conquistou um daqueles resultados que dialogam com a memória coletiva do esporte nacional: o título olímpico na perseguição por equipes do patinação de velocidade. Nesta terça-feira, 17 de fevereiro, o trio formado por Davide Ghiotto, Andrea Giovannini e Michele Malfatti cruzou a linha de chegada à frente dos Estados Unidos no Milano Speed Skating Stadium, assegurando a 24ª medalha italiana na edição.
O Bronze ficou com a China, que venceu a disputa pelo terceiro lugar contra a Holanda. Mas a narrativa deste ouro vai além do pódio: é a confirmação de um projeto coletivo que, nos últimos anos, se reposicionou entre as potências da pista longa.
Davide Ghiotto: formação, pensamento e trajetória
Davide Ghiotto representa, de modo singular, o encontro entre formação intelectual e prática atlética. Começou nos patins com rodas e migrou para o gelo inspirado pelos Jogos de Turim 2006, como tantos jovens italianos que encontraram ali um espelho. Licenciado em filosofia com uma dissertação sobre ética e suicídio, Ghiotto não esconde a leitura crítica que faz da própria modalidade: “É odiada porque não é entendida”, costuma dizer. Seus filósofos de cabeceira, Schopenhauer e Nietzsche, traduzem uma visão radical e reflexiva sobre esforço e limite.
Competidor de ponta, Ghiotto soma títulos mundiais e traz ao currículo um bronze olímpico em Pequim 2022 nos 10.000 m. Em Calgary (janeiro de 2025) registrou o impressionante tempo de 12:25.692 nos 10.000 m, e manteve rendimento elevado nos campeonatos mundiais e europeus que antecederam Milano Cortina. Aos 32 anos, atleta das Fiamme Gialle e pai de dois filhos, participa de sua terceira Olimpíada — uma trajetória que fala de consistência e de construção a longo prazo.
Michele Malfatti: da infância no gelo à especialização na equipe
Michele Malfatti descobriu o gelo aos cinco anos, incentivado pelo pai, e fez do esporte uma escolha de vida. Passou pelo short track entre 2006 e 2011 — escola de velocidade nervosa, contato constante e precisão nas curvas — antes de se transferir para as distâncias da pista longa, onde achou sua dimensão. Conhecido pelo passo constante e pela cabeça fria em provas onde a regulação do ritmo é crucial, Malfatti se especializou nos 5.000 m e na perseguição por equipes.
Em Pequim 2022, acumulou resultados sólidos que serviram de base para a progressão posterior: 15º nos 5.000 m e 7º na perseguição por equipes. Nos anos seguintes consolidou-se com pódios mundiais e europeus, até tornar-se peça-chave do trio campeão em Milano Cortina. Sua presença é sintoma de maturidade técnica e de sincronia com os companheiros.
Andrea Giovannini: o elo que completou o trio
Andrea Giovannini completou o trio vencedor e, sem alardes, representou o elo necessário entre força e cadência. Em competições coletivas como a perseguição, o resultado depende do sincronismo e da leitura de cada volta — atributos que Giovannini, pela experiência em pista longa, oferece com regularidade. A sua contribuição confirma que a vitória nas arenas modernas não é apenas soma de talentos individuais, mas articulação precisa de funções e ritmos.
Um ouro com significado social e esportivo
Mais do que um momento de glória, o triunfo italiano na perseguição por equipes diz respeito a estruturas: investimentos em formação, continuidade técnica e um calendário internacional que permitiu ao grupo calibrar-se nos últimos anos. Estádios e pistas são, como sempre, superfícies onde se projetam ambições regionais e narrativas nacionais. Este ouro reaproxima o país de uma tradição no gelo e realça a importância de políticas sustentáveis para manter talentos longe do curto prazo.
No fim, a imagem que ficará é a de três atletas que, em conjunto, transformaram preparo e silêncio tático em resultado. Em um país onde o esporte de inverno ocupa um espaço menor no imaginário coletivo do que o futebol, vitórias como esta ajudam a redefinir identidades e abrir portas para as próximas gerações.
Itália campeã: um feito que combina técnica, história e sentido público — exatamente o que cabe a uma narrativa esportiva pensada para além do marcador.






















