Na fría pista da Milano Rho Ice Hockey Arena, o percurso da seleção feminina da Itália no torneio de hóquei registrou um resultado que ultrapassa o placar: embora as Azzurre tenham perdido por 2-1 para a Alemanha no último jogo do grupo preliminar, já haviam garantido antecipadamente a classificação às quartas de final — um marco que merece leitura além do molde esportivo habitual.
Quem melhor descreve essa travessia é Damiano Fantin, pai de Matilde Fantin e figura de tradição no esporte — ex-jogador e, nas palavras do relato familiar, parte de um ofício transmitido. “É uma emoção fortíssima”, conta Damiano à Adnkronos. A frase sintetiza menos o êxtase de um resultado isolado e mais o acúmulo de trajetórias: formação, sacrifício e continuidade geracional.
Aos 19 anos, Matilde já entrou na história da seleção ao assinar a dupla decisiva contra o Japão, golos que carimbaram a vaga com uma rodada de antecedência. A mãe, presente no cordão íntimo dessa narrativa, descreve a mistura de orgulho e contenção: poucas ligações domiciliares, breves — sinal de alguém imerso na tarefa coletiva. É também o retrato de uma juventude esportiva que, em vez de buscar celebridade, prefere o foco.
O futuro competitivo, no entanto, impõe uma leitura realista. Pela frente, nas quartas, podem estar as potências Estados Unidos ou Canadá, seleções cujo domínio no hóquei no gelo feminino é estrutural e antigo. “Sarà quasi impossibile” — damiano não fala com desânimo, mas com precisão: o nível norte-americano e canadense excede em lógica, recursos e tradição boa parte dos elencos europeus. “Il livello che andremo ad affrontare non appartiene neppure a Germania, Giappone o probabilmente Svezia”, acrescenta, sublinhando a distância técnica.
Na mesma linha, a capitã de dupla cultura, Laura Fortino — italo-canadense — ofereceu uma perspectiva que, embora realista, preserva o ethos competitivo: quando o disco entra em jogo, é “apenas outra partida de hóquei”. Há, nessa frase, a convicção do esporte como momento de suspensão das hierarquias: o jogo devolve possibilidades mesmo diante da desigualdade estrutural.
Como observador e repórter, procuro ler esse episódio com lente histórica e social. A presença das Azzurre nas fases finais de um evento como Milano-Cortina 2026 joga luz sobre a construção de políticas de base, sobre a capacidade de clubes e federações de transformar interesse em formação e sobre o papel simbólico do esporte para cidades e regiões. Um resultado esportivo é, muitas vezes, termômetro de escolhas públicas e privadas feitas anos antes.
Assim, mesmo que o adversário das quartas seja uma montanha de recursos e tradição — Estados Unidos ou Canadá —, a Itália já conquistou algo que excede o resultado imediato: ganhou visibilidade, legitimidade e um capítulo de memória coletiva para um esporte frequentemente marginalizado no país. Essa conquista, para quem acompanha o jogo como fenômeno social, vale tanto quanto uma vitória em cima do gelo.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















