Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O dia 9 de fevereiro de 2026 ficará marcado na memória esportiva italiana. Em um domingo de competições espalhadas entre Milano, Cortina, Bormio e Predazzo, a Itália assinou um recorde: 6 medalhas conquistadas em apenas um dia — cinco de bronze e uma de prata — tingindo os Jogos de um vívido tom azzurro. Mais do que números, trata‑se de um momento simbólico: os Jogos em casa transformam-se em palco de afirmação esportiva e identidade nacional.
As competições começaram já pela manhã em Cortina, com a disputa do curling no torneio de duplas mistas. Stefania Constantini e Amos Mosaner enfrentaram os Estados Unidos em uma partida de fase de grupos que exigiu foco técnico e capacidade de leitura do gelo — atributos que vêm definindo a evolução da modalidade italiana nas últimas temporadas.
No mesmo horário, o Stelvio em Bormio recebeu a prova de descida da combinada por equipes do esqui alpino. A seleção italiana alinhou Mattia Casse, Giovanni Franzoni, Dominik Paris e Florian Schieder. Entre eles, Giovanni Franzoni destacou‑se ao terminar a parcial na liderança — um sinal da qualidade renovada entre os jovens tecnicistas italianos, embora a modalidade coletiva também revele a disparidade entre tradição e renovação nas diferentes esquerdas regionais do país.
Ao longo do dia a atenção dividiu‑se entre Milano e Livigno. Em Milano, a equipe feminina de hóquei sobre gelo entrou em cena contra o Japão, buscando consolidar presença e experiência numa modalidade historicamente dominada por outras nações. Em Livigno, o Snow Park recebeu Maria Gasslitter na final do slopestyle feminino, uma das chances de pódio mais aguardadas do dia.
O período vespertino trouxe o slalom da combinada por equipes e, à noite, um pacote de provas que culminou em grandes emoções: o luge feminino em Cortina, as provas de patinação de velocidade e o salto de esqui em Predazzo. Fechando a jornada no gelo de Milano, a disputa de dança no patinagem de figura resultou em mais uma medalha para a Itália — um bronze no team event que sintetiza bem a trajetória do país nesta disciplina.
As palavras das protagonistas ajudam a medir o valor simbólico da conquista. Lara Naki Gutmann definiu o momento como “uma emoção pazzesca”: “Depois da minha performance tivemos todos a dar tudo para apoiar o Matteo. Não tenho palavras, ainda não sei bem o que senti”. Gutmann ressaltou o apoio familiar e a influência de Carolina Kostner — “ela foi uma pessoa especial, me deu conselhos no último ano” — sublinhando a transmissão intergeracional de saberes dentro da patinação italiana.
Matteo Rizzo, que também integrou o conjunto medalhista, falou do peso de erguer uma medalha em casa: “Prender uma medalha em uma Olimpíada significa muito; fazê‑lo em casa é indescritível. Estávamos em transe, guiados pela emoção. Fiz o que precisava para segurar a Geórgia e tudo correu bem”. Rizzo lembrou ainda do percurso de reconstrução técnica que antecedeu este ponto: a medalha, disse, “muda a vida”.
Do ponto de vista histórico e social, esse acúmulo de pódios em um único dia revela mais que eficiência esportiva: reflete investimentos recentes em infraestrutura, um trabalho de formação que começa nas regiões alpinas e se projeta aos grandes centros, e a capacidade das federações italianas de integrar tradição e renovação. Em termos simbólicos, ver a bandeira italiana tantas vezes no pódio dentro de casa reativa memórias coletivas e confirma o esporte como espaço de construção de narrativa nacional.
Enquanto as competições seguem, a expectativa se volta para as provas restantes: a resposta técnica nas pistas de velocidade, outras finais no esqui alpino e as provas individuais de patinação artística. Se a manhã trouxe confirmação, a sequência de dias ainda pode transformar esse recorde em uma tendência sustentada ao longo dos Jogos.






















