Em Cortina d’Ampezzo, onde a lógica dos Jogos de Inverno mistura espetáculo, negócios e diplomacia pública, um episódio aparentemente curto teve repercussões imediatas: um empregado da loja oficial de Milano Cortina 2026, identificado como Ali Mohamed Hassan, pronunciou diante de um grupo de torcedores israelenses a expressão “Palestina livre”. A cena foi registrada em vídeo por testemunhas e rapidamente ganhou tração nas redes sociais.
O clipe, amplificado por organizações internacionais de monitoramento como StopAntisemitism, suscitou uma onda de críticas e pedidos por sanção. Em poucas horas, a organização dos Jogos tomou decisão categórica: o colaborador foi desligado. Em nota oficial, a direção justificou que “não é apropriado que o pessoal dos Jogos exprima opiniões políticas pessoais durante o trabalho”.
Há, aqui, duas camadas que merecem leitura além do incidente imediato. A primeira é institucional: grandes eventos esportivos tentam preservar uma imagem de neutralidade para proteger o evento de tensões externas que possam comprometer logística, segurança e o clima entre delegações e público. A segunda é simbólica e democrática: o gesto do empregado, por mais breve e simples que tenha sido, é também manifestação individual em um espaço onde as fronteiras entre consumo, trabalho e ativismo se tornam porosas.
Não se trata de relativizar qualquer posição, mas de compreender o que está em jogo quando símbolos políticos são evocadas dentro de um aparato de Estado e evento internacional. Estádios, lojas oficiais e praças centrais dos Jogos não são apenas pontos de comércio; são palcos de visibilidade máxima, onde pequenas ações têm potencial desproporcional de viralização.
Do ponto de vista organizacional, a resposta rápida é compreensível: preservar a imagem de imparcialidade evita que o evento seja marcado por confrontos e controvérsias que fogem ao escopo esportivo. Contudo, a decisão também abre uma discussão sobre limites ao direito de expressão de trabalhadores terceirizados ou contratados temporariamente, especialmente quando a fala não envolve incitação a violência, mas uma declaração política.
Para nós, que observamos o esporte como fenômeno social e identitário, o episódio reafirma algo que já é bem conhecido: megaeventos acentuam contradições sociais. Eles atraem capitais, turistas e narrativas concorrentes, e exigem decisões que, invariavelmente, escolhem entre prioridades—segurança institucional ou tolerância plural.
Resta saber qual será o desdobramento prático: se haverá recursos, novas posições públicas do empregado ou revisões nas políticas internas de conduta. Enquanto isso, a imagem do episódio segue circulando, lembrando que nas bordas bem aparadas do espetáculo olímpico há sempre fios soltos da vida pública que podem acender debates maiores.
Dados: o episódio ocorreu na loja oficial em Cortina d’Ampezzo, durante os preparativos e movimentação dos Jogos Milano Cortina 2026. A organização justificou a demissão com base em regras de conduta que proíbem manifestações políticas durante o trabalho.





















