Por Otávio Marchesini — Em uma noite pensada como síntese da cultura italiana, a Milano‑Cortina 2026 foi oficialmente inaugurada em uma cerimônia que privilegiou significado e espetáculo. Em São Siro, diante de aproximadamente 67 mil pessoas, a abertura intitulada “Armonia” apresentou uma narrativa que articulou história, arte e apelos contemporâneos.
O ato inaugural reuniu referências elevadas da tradição cultural italiana — de Antonio Canova às partituras de Verdi, Puccini e Rossini — e insistiu em elementos da cultura popular com menções a Raffaella Carrà. Entre os momentos que buscaram criar ponte entre o passado e o presente estiveram o Nessun dorma entoado por Andrea Bocelli, a leitura de “L’infinito” de Leopardi por Pierfrancesco Favino e a reinvenção do poema pacifista de Gianni Rodari por Ghali.
A cerimônia, concebida também como ato de paz, trouxe apelos explícitos — entre eles o pronunciamento de Charlize Theron — e cenas que privilegiaram gestos e imagens com forte carga simbólica, como o esquete de Brenda Lodigiani e os figurinos assinados por Giorgio Armani. As conexões com as sedes dos eventos de neve — Cortina, Livigno e Predazzo — foram permanentes, sublinhando a natureza distribuída desta Olimpíada de Inverno, que assume pela primeira vez uma circulação plural entre cidades e palcos.
O gesto formal de abertura coube ao Presidente da República, Sergio Mattarella, que pronunciou a fórmula ritual entre aplausos. Houve também um momento de descontração e humanização quando um vídeo mostrou sua chegada a São Siro a bordo do bonde número 26, conduzido por Valentino Rossi — imagem que reforçou a ideia de que estes Jogos se inscrevem tanto na modernidade quanto nas memórias populares do país.
Visivelmente emocionado, Giovanni Malagò, presidente do Comitê Organizador, declarou que nunca estivera tão orgulhoso de ser italiano, destacando a ambição de escrever uma nova página histórica para os Jogos. A presidente do COI, Kirsty Coventry, por sua vez, lembrrou aos atletas que a grandeza não se reduz à vitória, mas reside no coração, na coragem e na empatia.
Do ponto de vista performático, Armonia foi uma operação logística e estética considerável: 1.300 performers — entre profissionais e voluntários de 10 a 70 anos —, 1.440 componentes de conexão, 1.000 metros de LEDs dinâmicos, 1.400 figurinos, 1.500 pares de sapatos, 7.500 metros de tecido, além de uma vasta equipa técnica (110 maquiadores e 70 cabeleireiros) e mais de mil elementos de cena.
O encerramento trouxe uma síntese simbólica do esporte e da memória: ícones do futebol como Franco Baresi e Beppe Bergomi entraram em campo com a tocha, que foi então entregue ao capitão da seleção italiana de vôlei, Simone Giannelli. Houve ainda uma breve homenagem ao espaço com a presença de Samantha Cristoforetti, pouco antes do juramento olímpico lido pela campeã de curling misto em Pequim 2022, Stefania Constantini.
Mais do que uma sequência de números e efeitos, a cerimônia de São Siro procurou reafirmar uma narrativa nacional que mistura excelência artística, reconhecimento do capital humano e uma mensagem clara de cooperação e paz. Milano‑Cortina 2026 começa assim: não apenas como evento esportivo, mas como um gesto público que tenta traduzir a imagem da Itália contemporânea — complexa, criativa e simbólica — para o palco global.





















