Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.
A Milano Cortina 2026 não vive só nas pistas e nos palazzetti: a cidade se transformou numa vitrine de identidades nacionais, onde esporte, cultura e marketing se entrelaçam nas chamadas Casas Olímpicas. Entre palácios históricos e pavilhões contemporâneos, visitantes, torcedores e curiosos buscam mais do que acompanhar resultados — procuram experiências que traduzam histórias coletivas e estratégias de imagem.
O destaque: Korea House em Villa Necchi
Uma das mais concorridas é a Korea House, instalada na elegante Villa Necchi Campiglio. Segundo representantes do comitê sul-coreano, cerca de 1.800 pessoas visitam o espaço diariamente, mediante reserva. A proposta vai além da promoção esportiva: é um retrato da Coreia do Sul moderno, que mistura k-pop, gastronomia e rituais de cuidado pessoal — onde visitantes podem assistir a apresentações ao vivo, experimentar rotinas de skincare, vestir trajes tradicionais para fotos e provar pratos como o red chicken e a bebida ritual sikhye. Jogos tradicionais como o Gonggi, popularizados em parte pela série Squid Game, também fazem parte da programação.
Casa China: tradição num sobrado histórico
Na periferia norte, a Casa China ocupa a nobre Villa Clerici. O fluxo é mais contido — cerca de 200 visitantes por dia, mediante agendamento — mas o conteúdo é explícito em projetar soft power: salas-museu exibem objetos e memórias vindas de Pequim; oficinas ensinam a arte do açúcar escultórico e o corte de papel tradicional; há ainda demonstrações de curling em simuladores e cerimônias do chá. Pequenos brindes, como alfinetes temáticos, reforçam o caráter promocional e afetivo do espaço.
Casa Olanda no Superstudio: espetáculo e marketing
No pulsante bairro Tortona, o Superstudio abriga a Casa Olanda, que se transformou em um grande salão de torcida. Conforme a organização holandesa, o local recebe até 3.000 visitantes por dia a partir das 16h. O ingresso custa 34,50 euros para adultos e 22,50 euros para crianças — um exemplo claro de como a experiência paga se sobrepõe à entrada livre em algumas casas. Três megatelões, DJ set, comidas e uma área de merchandising compõem o cenário; há ainda simuladores de esqui, selfies no pódio e a presença de atletas como a patinadora Jutta Leerdam, que reforçam a ligação entre espetáculo e imagem nacional.
Outras presenças e o sentido coletivo
Nem todas as casas seguem o mesmo modelo: a Casa Svizzera, por exemplo, optou pela entrada livre e se anuncia com um grande mural rosa em Piazza Cavour. Há ainda espaços menores — belgas, tchecos — organizados como pubs e restaurantes, que apostam na convivialidade para promover receitas e cultura futebolística ou de inverno.
Em meio a isso, momentos institucionais ganham destaque: no encontro em Casa Italia, o presidente Sergio Mattarella frisou que “as medalhas são dos atletas”, sublinhando a diferença entre simbolismo nacional e protagonismo individual.
Uma leitura crítica
Observar as Casas Olímpicas é ler as Olimpíadas por outra lente: não apenas como competição, mas como palco de diplomacia pública, turismo e economia de experiência. Locais históricos como a Villa Necchi oferecem um contraponto simbólico ao estilo pop e comercial do Superstudio. Entre bilhetes pagos e entrada livre, entre tradições e simuladores de neve, o fenômeno revela que, em 2026, o jogo fora do campo tem tanto poder de atração quanto o dentro dele — e diz muito sobre como países constroem narrativas e memórias para além da pista.
Para o leitor que busca entender o esporte como fato social, as Casas Olímpicas em Milão são, mais do que pontos turísticos, laboratórios de identidade: experimentos públicos onde cultura, marketing e memória se encontram e se negociam à vista de todos.






















