Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O retorno do esqui alpino aos Jogos de Milano Cortina 2026 ficou marcado nesta manhã pela superioridade de Braathen, que imprimiu tempos significativamente à frente dos adversários na primeira manga do slalom gigante masculino. A prova, que tradicionalmente exige equilíbrio entre velocidade e precisão — com trechos de 20 a 30 metros entre curvas e velocidades médias entre 60 e 80 km/h — começou a desenhar hierarquias já na primeira descida.
O resultado mais evidente foi a distância imposta por Braathen sobre seus rivais imediatos. Em segundo lugar provisório ficou Odermatt, a +0,95, enquanto o primeiro italiano a descer, Alex Vinatzer, registrou um tempo a +2:39 do líder e aparecia em décimo provisoriamente. Esses números mostram como, numa pista olímpica onde a margem de erro é mínima, pequenos desvios de linha podem traduzir-se em diferenças enormes na classificação.
A prova, no entanto, também foi marcada por um incidente que arrancou suspiros da tribuna: a queda do jovem Malinin durante a primeira manche. O episódio interrompeu momentaneamente o ritmo da competição e relembrou a natureza inclemente do esporte, em que a combinação de velocidade, neve e pressão competitiva pode ter consequências imediatas. As equipes de resgate e o staff médico atuaram prontamente, seguindo os protocolos de segurança que caracterizam grandes eventos como este.
Mais amplamente, a presença de Braathen no lugar mais alto da classificação transborda o marco puramente esportivo. Filho de pai norueguês e mãe brasileira, o atleta teve trajetória errática nos últimos anos — participou dos Jogos de Pequim 2022 sem concluir as provas e fez uma pausa em 2023 após desentendimentos com estruturas técnicas relacionados à gestão de patrocinadores. A vitória histórica em Levi, destacada como o primeiro triunfo de Coppa del Mondo vinculado ao Brasil, é tanto um feito individual quanto um sinal das transformações identitárias modernas no esqui alpino: deslocamentos, bi-nacionalidades e escolhas profissionais que atravessam federações tradicionais.
Enquanto isso, a delegação italiana tem vivido dias de contrastes nos diferentes centros de competição: no circuito do Lago di Tesero, a Itália figura em segundo lugar na staffetta 4×7,5 km de esqui cross-country feminino, a 7,2 segundos da Suécia; já no curling feminino, as italianas voltaram a perder — desta vez por 8-7 para a China, quando lideravam por 5-7 ao término do oitavo end. No freestyle, Giovane talento como Giada D’Antonio sofreu uma queda em treino de gigante em Dobbiaco e está sendo submetida a exames; e Manuela Passaretta teve eliminação precoce nos dual moguls de Livigno, possivelmente afetada por uma contusão na tíbia sofrida em treinos.
O quadro geral é, portanto, plural: há desempenhos que enchem as prateleiras da memória esportiva — como o triunfo simbólico de Braathen — e episódios que lembram a fragilidade humana e institucional por trás da performance. Nos Jogos de Milano Cortina 2026, a leitura dos resultados exige essa dupla lente: analisar o tempo cronometrado na pista e compreender o contexto que levou cada atleta até ali.
A segunda manga do slalom gigante definirá os pódios e confirmará se as diferenças escancaradas na primeira descida se transformarão em medalhas. Entre os elementos a observar estarão as condições da pista, as escolhas de linha dos competidores e, claro, a capacidade de reação — física e mental — daqueles que viram suas chances ameaçadas por quedas ou por tempos deficitários na primeira tentativa.
Continua a cobertura de Milano Cortina 2026 com análise das implicações técnicas e culturais de cada prova para a memória esportiva italiana e europeia.





















