Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No décimo primeiro dia de competições dos Jogos de Milano Cortina 2026, a atenção volta-se para as provas de técnica e velocidade que historicamente mais mobilizam identidade regional e tradição esportiva na Itália. Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, os olhos italianos concentram-se sobretudo no slalom feminino e, à noite, nas tensas baterias do short track.
O desempenho dos azzurri até aqui merece leitura que vá além do placar: são 24 medalhas acumuladas — cifra que traduz, simultaneamente, a profundidade de um ciclo de formação e a vocação de certas regiões do país para esportes de inverno. A mais recente conquista veio com a prova masculina do pattinaggio di velocità, na especialidade de inseguimento por equipes, quando Davide Ghiotto, Andrea Giovannini e Michele Malfatti subiram ao lugar mais alto do pódio, superando os Estados Unidos na final. Foi o nono ouro para a delegação italiana, num resultado que reitera a consistência coletiva do time.
O cronograma do dia oferece duas narrativas paralelas. A primeira, no contrafluxo da espetacularidade midiática, é técnica: o slalom feminino reúne trajetórias individuais que incorporam histórias de resistência, recuperações e trajetórias regionais das escolas de esqui alpino italianas. É uma prova em que margens mínimas — décimos e centésimos — decidem destinos e em que a leitura do terreno e a memória coletiva das encostas italianas se convertem em vantagem competitiva.
A segunda narrativa, noturna, é de tensão estratégica: o short track exige leitura do oponente em movimentos fragmentados, paciência tática e capacidade de explosão. Em competições tão curtas, a coesão da equipe e a experiência em gerir conflitos dentro da pista frequentemente determinam se uma nação transforma potencial em pódio.
Como analista, não vejo apenas a soma das 24 medalhas como indicador isolado de sucesso; ela é também um espelho de investimentos regionais, de políticas de base e de uma cultura esportiva que, na Itália, conecta montanha e costa, tradição e modernidade. O ouro no pattinaggio di velocità novamente sublinha a força de modalidades menos espetaculares para o grande público, mas essenciais para o calendário olímpico e para a formação de um projeto esportivo sustentável.
Para os torcedores e para a imprensa, o dia será de espera e de análise: observar linhas de corrida, decisões técnicas e estratégias de equipe. Para as atletas do slalom e para os representantes do short track, trata-se de transformar preparação em execução sob a pressão de um país inteiro que acompanha, com cuidado e expectativa, cada descida e cada volta.
À medida que a competição avança, a Itália busca não apenas medalhas, mas reforçar uma narrativa: a do esporte como patrimônio coletivo e reflexo de uma identidade que, em Milano Cortina 2026, se oferece ao mundo com a complexidade de suas tradições regionais e com a urgência de suas ambições futuras.






















