Por Otávio Marchesini — Em um jogo que desenhou mais as fragilidades do que o caráter de recuperação, o Milan não passou de um empate por 1 a 1 com o Como, no jogo de recuperação da 24ª rodada. O resultado amplia a vantagem da Inter para sete pontos e transforma a perseguição pelo scudetto numa tarefa que, embora não impossível, exige muito mais do que esperança.
A partida teve desfecho em duas imagens simbólicas: o erro grave de Maignan que originou o gol de Nico Paz e o toque de classe de Leão — um pallonetto que superou o goleiro Butez e valeu o empate. Entre os dois momentos, um jogo tenso, truncado, em que a alteração tática promovida por Fabregas acabou por fechar espaços e transformar o confronto em uma disputa de paciência e resistência.
O treinador do Milan, Allegri, começou sem Loftus-Cheek — afastado por gastroenterite nas horas que antecederam o duelo — e também sentiu a ausência de Rabiot, suspenso: ausências que condicionaram escolhas e limitaram alternativas no meio-campo. Optou por uma dupla ofensiva com Leão e Nkunku, procurando território e profundidade, mas a partida permaneceu presa ao esquema defensivo adversário.
O primeiro tempo ficou marcado pela falha de Maignan, que calculou mal um passe e entregou a bola a Paz, autor do gol que colocou o Como à frente. No intervalo, o placar e a tendência tática chamavam atenção: enquanto o Como se blindou com uma linha de cinco, memorizada pelo próprio treinador após lições do jogo anterior no lago, o Milan sofreu para encontrar variações que quebrassem a solidez rival.
Aos 20 minutos da etapa final, porém, a partida ganhou um lampejo. Cruzamento/lançamento de Jashari encontrou Leão, que, em cavadinha precisa, deu números finais ao marcador — o oitavo gol do atacante na atual temporada, igualando o total do ano passado. Foi um momento de classe individual numa noite de inquietações coletivas.
O ponto conquistado não esconde o desconforto: a diferença para a liderança aumenta e a margem de erro diminui. O técnico Allegri foi expulso após protestos intensos no fim da partida; fora do campo, ainda houve atrito com Fabregas, que respondeu ao treinador com menos veemência mas sem ceder no tom. “Partita equilibrata, quasi noiosa”, avaliou Allegri. “Dovevamo gestire meglio la ripresa. Abbiamo guadagnato un punto su chi ci sta dietro”, admitiu com franqueza. A réplica de Fabregas classificou como exagerada a ironia de Allegri sobre um empurrão a Saelemaekers, encerrando o episódio com consumo público que ilustra as tensões do futebol moderno.
Há também pequenas curiosidades que nos lembram da dimensão social do espetáculo: entre os aproximadamente 75 mil presentes, figurou Tom Brady, lenda do futebol americano e amigo de Ibrahimovic, uma presença que diz muito sobre os cruzamentos entre esportes e celebridades no cenário contemporâneo.
Em termos práticos, o Milan sai do jogo com uma sensação ambígua: a sequência de resultados úteis (24 jogos sem derrota, ainda a mais longa da Europa) protege de críticas imediatas, mas não resolve a questão principal — a capacidade de disputar o título. Para isso, além de melhorar performances internas, a equipe depende, em parte, de oscilações alheias. Resta ao clube, aos jogadores e à sua torcida a responsabilidade de transformar tradição em consistência.
Data do jogo: 18 de fevereiro de 2026.





















