Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em Livigno, na chegada à Casa Italia para o tradicional Medal Moment, a snowboarder italiana Michela Moioli desacostumou-se à sobriedade do cenário e, com ironia contida, comentou sobre o rosto ainda marcado pela queda: “o truque faz milagres”. A franqueza transformou uma imagem de fragilidade física em gesto de resistência simbólica.
Moioli, que conquistou a medalha de bronze no snowboard cross, recordou que havia passado por horas no hospital apenas dois dias antes. “Dois dias atrás, a esta hora, eu ainda estava no hospital, mas ontem à tarde eu dei um clique”, disse, sintetizando a tensão entre o corpo assediado pela lesão e a capacidade psicológica de transformar dor em performance.
Ao qualificar a sexta-feira 13 como inusitadamente auspiciosa — “venerdì 13 per una volta ha portato bene” — a atleta devolveu à superstição um sentido novo: não o de azar inevitável, mas de contracorrente, quando a preparação, a equipe e a decisão pessoal se sobrepõem ao acaso. “É uma medalha que sonho há anos, havia muita pressão, eu suei e fiz vocês suarem também. A minha equipe acreditou mesmo quando eu não acreditava, devo agradecê-los. Estou muito feliz”, declarou Moioli, reconhecendo explicitamente o papel coletivo por trás do êxito individual.
O episódio, embora singelo, revela dimensões mais amplas do esporte contemporâneo. No snowboard cross, modalidades em que a exposição ao risco é permanente, a narrativa pública tende a oscilar entre a exaltação do gesto atlético e a estetização da dor. Moioli escolhe um caminho distinto: ironiza a máscara — o truque — que torna visível o esforço e, ao mesmo tempo, invisibiliza as marcas, e aponta para o suporte técnico e humano que sustenta o resultado.
Como repórter que observa a interseção entre memória coletiva e espetáculo esportivo, reconheço nesta fala um padrão recorrente na trajetória de atletas que se confrontam com lesões graves mas retornam ao pódio: a construção de uma narrativa que transforma vulnerabilidade em autoridade moral. A presença de Moioli em Livigno, sorrindo apesar do rosto tumefato, atua como metáfora — os atletas não apenas competem; constroem imagens de resiliência que reverberam em cidades, clubes e gerações.
O Medal Moment em Casa Italia foi, assim, palco de uma imagem ambivalente: a celebração de uma conquista individual e a lembrança do custo físico que ela exigiu. Moioli saiu do episódio com a medalha e com uma lição clara para o público: por trás do brilho da medalha há profissionais, decisões médicas, treinos e uma comunidade que sustenta a aposta. O humor, naquele contexto, foi também um mecanismo de agência — pequena arma para retomar controle da própria narrativa.
Ao deixar Livigno, a atleta carregava não só a medalha, mas o reconhecimento público de uma escolha difícil: competir sob pressão, aceitar a ajuda da equipe e transformar uma marca no rosto em palavra — e em imagem — de agradecimento.





















