Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Foi uma noite de festa no Sliding Centre Eugenio Monti, e no centro das atenções estava Mattia Gaspari, o atleta de Cortina que já entrou para a história do esqueleto italiano ao conquistar, em 2020, a primeira medalha mundial da Itália na modalidade, em Altenberg. Após completar a sua quarta e última descida, Gaspari fez um aceno contido ao público: um gesto que traduziu tanto a frieza necessária para pilotar a poucos centímetros do gelo quanto a gratidão por disputar uma Olimpíada a cerca de seiscentos metros de casa.
O público reuniu-se em massa ao longo do traçado que serpenteia ao pé das Tofane — italianos e uma ampla presença estrangeira: ingleses, franceses, austríacos, alemães e até torcedores de Israel. Nas telas próximas à chegada, repetiam-se imagens das descidas, com atletas atingindo entre 110 e 130 km/h. É quase inacreditável como, deitado de bruços e de cabeça para a frente, um competidor consegue guiar aquela velocidade extrema com microajustes dos pés e das pernas: um controle minucioso que transforma risco em técnica.
Gaspari reconheceu que esperava um resultado melhor, mas, sobretudo, valorizou permanecer entre a elite de uma disciplina que atraiu a Cortina atletas de toda a Europa e da Ásia. Mais do que a classificação, porém, foi outro episódio que o emocionou e que ele considerou definitivo para sua ligação com o local: acompanhar, desde o início, a construção e a recuperação do complexo de deslize.
“Participar das Olimpíadas aqui, a seiscentos metros de casa, será um dos momentos mais felizes da minha vida”, disse. “Mas há uma outra emoção que me marcou tanto quanto: ver os operários emocionarem-se quando inauguramos a pista de bob. Eu acompanhei o canteiro desde o começo até o fim, e saber que aquilo foi construído por mãos da nossa gente — e que essas mesmas mãos vibraram na inauguração — tem um valor que vai muito além das medalhas.”
Essa dimensão local — do trabalho, da memória e da comunidade — é isso que transforma um equipamento esportivo em patrimônio coletivo. O Sliding Centre Eugenio Monti não é apenas um circuito de gelo; é uma infraestrutura que reconfigura o tecido social e turístico de Cortina, cria oportunidades para novas gerações e reescreve a história esportiva regional. Ver um atleta nascido ali competir em casa é, nesse sentido, mais do que desempenho: é confirmação de um projeto cultural e esportivo.
Na sequência das provas, ficou claro que o evento cumpriu papel de vitrine: levou ao entroncamento entre tradição alpina e esportes de deslize competidores vindos da China, Coreia e Japão. Esse movimento internacionaliza o espaço e coloca Cortina entre as poucas localidades europeias capazes de somar memória, técnica e modernidade em pistas de alto nível.
Mattia Gaspari saiu da pista com a sensação de dever cumprido e com a convicção de que o mais duradouro daquela experiência não é um resultado isolado, mas a sequência de gestos — do operário ao atleta — que transformaram um projeto incerto em um legado tangível. É esse legado que, em última instância, legitima a festa que se viu naquela noite à beira das Tofane.





















