Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma cena que entrelaça autoridade institucional e memória esportiva, o presidente da República, Sergio Mattarella, recebeu em Cortina d’Ampezzo as duas azzurre do slittino que brilharam nos Jogos Olímpicos. O encontro, breve e simbólico, culminou na saudação clara do chefe de Estado: “Siete state favolose” — “Vocês foram fabulosas”.
As campeãs olímpicas Andrea Voetter e Marion Oberhofer compareceram acompanhadas pelo diretor técnico nacional, o lendário ex-atleta Armin Zoeggeler, cuja presença dá à imagem um sentido de continuidade entre gerações. Zoeggeler, ele próprio figura seminal do deslize italiano na pista, atua hoje como garante técnico e cultural de um projeto que voltou a colocar o país entre os protagonistas do esporte de inverno.
O gesto de Mattarella ultrapassa a cortesia protocolar. Receber atletas vitoriosas no palco simbólico de Cortina — cidade que carrega história e expectativas associadas aos grandes eventos do gelo — é reconhecer, diante da opinião pública, o papel das mulheres no esporte italiano e a relevância estratégica das modalidades de inverno para a identidade esportiva nacional. Em poucas palavras, o presidente fez o que cabe a um estadista: transformar um triunfo esportivo em patrimônio coletivo.
Para além da fotografia do encontro, cabe lembrar o contexto: o slittino sempre teve na Europa central e nos Alpes um aspecto quase folclórico, mas também técnico e científico; é um esporte onde know-how, instalações e investimento em base fazem diferença. A afirmação dessas duas atletas sinaliza, portanto, não apenas talento individual, mas uma estrutura que soube ser eficiente quando exigida.
Do ponto de vista simbólico, o acompanhamento de Zoeggeler é uma narrativa por si só. A passagem de bastão entre quem colecionou façanhas e quem hoje ergue a bandeira em pistas internacionais traduz uma continuidade que resiste aos ciclos curtos do calendário esportivo. É um lembrete de que resultados olímpicos raramente são acidentes: são, antes, frutos de um ecossistema — clubes, treinadores, federações, patrocinadores e, não menos importante, cultura local.
Num país onde o futebol costuma ocupar o epicentro do imaginário coletivo, episódios como esse ajudam a resgatar e reposicionar modalidades de inverno no debate público. A recepção presidencial, portanto, vale como reconhecimento institucional e como estímulo: para novas meninas nas escolas de gelo, para gestores que buscam investimento e para uma comunidade que reconhece no esporte uma via de afirmação regional e nacional.
O breve diálogo em Cortina — palavras simples, gesto direto — diz muito sobre como a Itália lê hoje suas conquistas: com orgulho contido, com atenção às raízes e com a consciência de que cada medalha compõe a narrativa mais ampla da nação.
Otávio Marchesini
Repórter de Esportes, Espresso Italia






















