Mattarella chegou a Cortina com o casaco corta‑vento da seleção italiana por cima do traje formal — imagem que traduz a combinação entre instituição e paixão popular que os grandes eventos esportivos evocam. Instalado na posição destinada a acompanhar o Super‑G feminino, o Presidente da República foi recebido pelas autoridades esportivas e pelo calor institucional que costuma acompanhar as principais competições.
A presidente do Comitê Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, não escondeu a admiração pelo cenário alpino que acolhe os Jogos Olímpicos de Inverno: um gesto e um ‘amazing’ que sintetizaram o fascínio pela paisagem e pela organização. Mais do que isso, Coventry dirigiu-se ao presidente com as ‘congratulazioni per i successi’ conquistados até então pelos atletas de casa — um reconhecimento internacional à capacidade competitiva e ao investimento nacional.
Ao lado de representantes como Giovanni Malagò, presidente da Fondazione Milano‑Cortina, o momento teve também traços de informalidade. Malagò, fugindo um pouco do protocolo, convidou a todos a manterem ‘sempre i piedi per terra’ — conselho que encontrou em Mattarella um sorriso cúmplice. As imagens divulgadas pelo Quirinale mostram as saudações com o presidente da região, Luca Zaia, e breves conversas com membros da equipe técnica, antes de os olhos voltarem-se às imagens da pista e à tela de classificações.
Não faltou o drama cotidiano do esporte. A saída precoce de Sofia Goggia na primeira parte do traçado da Olympia delle Tofane deixou no ar o lamento de quem imagina outra medalha possível. O desapontamento do Presidente era perceptível: tratar‑se‑ia da frustração por ver esvair‑se uma expectativa coletiva de glória. Mas o esporte é também imprevisibilidade e redenção — e foi nesse movimento que a vitória de Federica Brignone, com a medalha de ouro, reescreveu o sentido daquela tarde, tornando a presença presidencial ainda mais significativa.
Como observador, é preciso ler esses gestos para além do retrato oficial. A presença de Mattarella em Cortina não é apenas um ato de protocolo; é uma confirmação simbólica de que o esporte continua a ser um mecanismo de construção de memória nacional e de projeção internacional. Estádios e pistas, sobretudo em regiões como as Dolomitas, funcionam como palcos onde se negociam identidades regionais e narrativas de Estado — entre orgulho local e visibilidade global.
O dia trouxe, portanto, camadas distintas: a frustração humana diante da queda de uma favorita, a celebração de uma conquista que compõe a narrativa dos Jogos e a diplomacia silenciosa representada pelos cumprimentos entre dirigentes. Num país onde o esporte tem historicamente papel aglutinador, estes instantes reafirmam a relação íntima entre instituição, comunidade e atleta.
Ao final, o ouro de Brignone não só premiou uma performance esportiva, mas também selou simbolicamente uma tarde em que a Itália viu, nas encostas de Cortina, uma pequena síntese de sua capacidade de se reinventar diante do olhar do mundo.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia.






















