Depois da abertura solene em San Siro, o percurso presidencial segue rumo às montanhas. O presidente da República, Sergio Mattarella, desembarca em Cortina para sua segunda etapa nas Olimpíadas de Milano-Cortina, onde permanecerá por duas jornadas até a tarde de quinta-feira. A visita institucional, coordenada pelo Quirinale em conjunto com o CONI e a Fondazione Milano Cortina, é um dos momentos políticos e simbólicos mais aguardados da programação nos Alpes venetos.
O ponto alto da estadia será a presença do presidente na tribuna da descida do Super G feminino, no traçado histórico da Olympia delle Tofane, cuja prova tem largada marcada para as 11h30. Haverá, como de costume em visitas de Estado a eventos de grande visibilidade, um reforço notável no dispositivo de segurança: Cortina, já “blindada” desde dias antes, verá medidas adicionais nos pontos sensíveis para acolher o chefe do Estado.
Além da observação das provas, a agenda de Mattarella prevê um roteiro que mistura protocolo e convivência com as delegações. Após a competição, o presidente deve visitar o Villaggio Olimpico de Fiames, onde encontrará os atletas italianos e compartilhará com eles um almoço, gesto com forte carga simbólica — um momento em que a representatividade institucional se cruza com o afeto de uma delegação que enxerga no encontro com o presidente uma rara e curta pausa de reconhecimento.
No início da tarde, está prevista a passagem por Casa Italia, a sede montada pelo CONI no centro de Cortina, local de encontro entre equipes e público, emoldurada pela vista das Dolomitas e pelos cinco anéis olímpicos que compõem sua fachada simbólica. Ali se dá não apenas um consumo mediático do espetáculo, mas também um ritual de identidade nacional em torno do esporte.
A comitiva presidencial incluirá o presidente da Região do Vêneto, Alberto Stefani, que divide com Mattarella o que será o primeiro dia em Cortina durante a fase de corridas. A imagem institucional ganha ainda mais contornos políticos com a presença do ex-guia e grande artífice da candidatura, o presidente do conselho regional Luca Zaia, cuja participação remete à longa história local de promoção e defesa do projeto olímpico iniciado em 2019.
Do ponto de vista urbano, Cortina permanece em estado de cerco desde pelo menos uma semana antes da cerimônia — presença contínua de forças de segurança em carros e a pé por todo o centro e vias de acesso — e, para a visita do presidente, esse aparato será intensificado. É uma lembrança prática de como grandes eventos esportivos reconfiguram o espaço público, transformando cidades em ilhas de controle e visibilidade.
Em termos esportivos, há expectativa sobre as performances das atletas italianas, com atenção especial para nomes como Sofia Goggia e Federica Brignone, cuja presença nas listas de largada acende a esperança local. Mais do que medalhas, a visita presidencial busca valorizar o vínculo entre Estado e esporte, reafirmando um papel de representação que vai além do protocolo: trata-se de uma presença que confere significado cívico a um evento que mistura tradição, economia e memória coletiva.
Como cronista atento aos cruzamentos entre poder, território e espetáculo esportivo, vejo na passagem de Mattarella por Cortina um gesto que articula legitimidade e celebração. Não se trata apenas de acompanhar uma prova; é também reconhecer o efeito de um acontecimento internacional sobre uma comunidade local, suas instituições e sua paisagem.






















