O mundo da vela recebe um nome fora do ambiente técnico habitual: Marzio Perrelli, executivo romano de 57 anos, foi indicado como novo CEO da America’s Cup Partnership, a aliança formada pelas equipes fundadoras da competição. A escolha marca um esforço claro para transformar uma regata com 174 anos de história em um produto esportivo com regras mais estáveis, atratividade comercial e desenho de participação que recorda o modelo da Formula 1.
A próxima edição, já com a organização direcionada para Napoli 2027, aparece como palco simbólico dessa transformação: um grande evento nacional projetado como sucedâneo às Olimpíadas em termos de mobilização e visibilidade. Por trás das embarcações, a máquina administrativa age para tornar o calendário bienal e estruturar receitas de longo prazo — da televisão aos patrocínios e ao interesse de private equity.
O consórcio reúne nomes como o defensor Team New Zealand, os desafiantes de Athena Racing (com Ben Ainslie e financiamento privado), a tradicional Luna Rossa, a suíça Alinghi e a francesa K-Challenge. A intenção é clara: replicar mecanismos já testados em esportes motorizados, onde equipes se unem para definir um regulamento estável e dividir receitas, garantindo previsibilidade para investidores e emissoras.
O paralelo com a indústria dos motores não é puramente retórico. Figuras e estruturas vinculadas ao automobilismo já cruzaram com a vela — Adrian Newey trabalhou com a Alinghi e a Mercedes contribuiu com engenharia para a Britannia —, mas desta vez o foco é estratégico: aplicar ao circuito da vela a lógica de governança que fez a Formula 1 renovar seus fluxos de receita e atratividade global. A própria Ferrari mantém um pé no mar com o projeto Hypersail, e pode observar as próximas edições da America’s Cup com interesse renovado.
O perfil de Perrelli responde a essa necessidade. Com passagens por Goldman Sachs e HSBC, e experiência na área de direitos esportivos como vice-presidente da Sky Italia, ele traz a combinação de capital financeiro e know‑how em mídia que o consórcio busca. A comparação com gestores como Stefano Domenicali surge naturalmente: trata-se de converter prestígio e conhecimento corporativo em liderança esportiva.
O projeto será dirigido, na sua ambiência técnica e esportiva, por figuras consolidadas como Grant Dalton, o mentor do Team New Zealand. Ainda há etapas a validar: o pacto entre equipes precisará ser testado em competição real, começando pelas regatas preliminares programadas para Cagliari, de 21 a 24 de maio. A trajetória rumo a Napoli 2027 será, portanto, tanto organizativa quanto simbólica — um teste de capacidade de traduzir tradições em produto moderno e sustentável.
Para além dos acertos de calendário e da engenharia das embarcações, a mudança anunciada representa um movimento cultural. Estádios e docas tornam-se palcos onde se negocia memória, identidade regional e modelo de financiamento do esporte. Se a escolha de Marzio Perrelli se confirmar plenamente, teremos um timoneiro italiano a bordo de uma transformação que quer casar espetáculo, estabilidade econômica e estratégia a longo prazo.
Bom vento para Napoli: a vela italiana e europeia observam, cautelosas e curiosas, a promessa de um novo rumo.






















