Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Aos 31 anos, a veneziana Martina Favaretto viveu um desses episódios do esporte que mais dizem sobre fragilidade e significado do que sobre mero resultado: por apenas dois centésimos de segundo não conseguiu a qualificação para os Jogos Olímpicos, decisão que teria ocorrido nos dias de provas no traçado Eugenio Monti, em Cortina. A perda da vaga, dolorosa pela proximidade do objetivo, encontrou na rotina escolar da atleta — ela é professora em escolas médias de Mogliano Veneto, província de Treviso — um consolo imediato e coletivo.
Os relatos e as imagens que chegaram da sua turma descrevem um gesto simples e potente: um cartaz assinado por toda a escola com a frase traduzida livremente para o português como “Para nós, a professora mais rápida do mundo” (no original italiano: «Per noi resta la prof più veloce del mondo»). O cartaz foi elaborado a partir da iniciativa de alunas do segundo ano do ensino médio, e, segundo Favaretto, provocou uma descarga de emoção e gratidão. “Chorei com eles”, disse a atleta, descrevendo lágrimas que não eram apenas de frustração, mas também de reconhecimento pelo valor da paixão compartilhada.
A história de Martina Favaretto remete, de modo claro, à trajectória de muitos atletas em modalidades menos centrais no imaginário esportivo: começando na atletismo como velocista, há quatro anos ela integra a seleção italiana de bob, modalidade em que o papel de frenadora — ou frenatrice — exige explosão na etapa inicial e coragem no controle em velocidades que podem atingir 130–140 km/h.
Favaretto descreve seu trabalho no bob: “Empurramos o trenó nos primeiros 40–50 metros, eu entro junto com a piloto e, no fim da descida, faço a frenagem”. O conjunto técnico também é rigoroso: um bob vazio pesa entre 175 e 180 quilos; com a tripulação chega-se a cerca de 330 quilos. O controle do peso e a precisão da performance em centésimos de segundo são, portanto, elementos centrais desse esforço coletivo.
Além do aspecto técnico, há o conflito cotidiano entre a profissão e o alto rendimento. Favaretto confessou a incerteza sobre tentar os Jogos de 2030: “Eu tenho uma idade diferente e trabalhar torna difícil conciliar tudo. Se eu pudesse ser apenas atleta seria distinto”. A resposta dos alunos — e a volta à sala de aula — foram, segundo ela, instrumentos de resiliência. Ela procura usar essa experiência como lição para os estudantes: nem sempre os resultados chegam como esperado, mas o sacrifício e a paixão mantêm sentido.
O episódio também ilumina outra dimensão: o esporte como tecido social. Estádios e pistas são cenários de performance, mas também espaços de transmissão de valores, de construção de identidade comunitária. O cartaz dos alunos é um gesto simbólico que realinha a narrativa, transformando uma eliminação por culpa dos centésimos em uma confirmação de relevância humana — muito além do cronômetro.
Por fim, Favaretto comentou sobre a importância de estruturas como o Sliding Center de Cortina: para que modalidades como o bob prosperem na Itália é necessário que tais centros funcionem como polos federais de treinamento. A sua história — de velocista a frenadora, de atleta a professora — permanece como um retrato do esporte contemporâneo, onde a excelência técnica convive com escolhas profissionais e afetivas.
Imagem sugerida para a matéria: Fotografia de Martina Favaretto na escola com alunos segurando o cartaz, ou imagem dela em traje de competição no Sliding Center de Cortina.





















