Milano Cortina fechou seus jogos com uma declaração que sintetiza o sentido público e simbólico do evento. Em Verona, na noite de 22 de fevereiro de 2026, Giovanni Malagò, presidente da Fundação Milano Cortina, fez um discurso de encerramento em que destacou não apenas a qualidade técnica da organização, mas a dimensão coletiva do êxito: “Ben fatto, Italia. Hai mantenuto le tue promesse! Grandissima Italia, sei stata di parola!” — palavras que foram traduzidas na lectio italiana da cerimônia e reverberaram entre espectadores e autoridades presentes na Arena de Verona.
Malagò recordou que, na cerimônia de abertura, havia afirmado nunca ter estado tão orgulhoso de ser italiano. No encerramento, disse, o sentimento tornou-se ainda mais intenso: “Alla Cerimonia di Apertura dissi che non ero mai stato così orgoglioso di essere italiano. Questa sera, lo sono ancora di più.” Em seguida, agradeceu aos que trabalharam incansavelmente e aos que acreditaram no projeto: “Siete una squadra vincente, siate orgogliosi della vostra impresa” — um convite à interpretação do sucesso como obra coletiva, mais do que vitória isolada.
Como observador atento às tramas que atravessam o esporte, vejo nesta intervenção algo além do aplauso protocolar. A retórica de Malagò organiza significado: nomeia promessas cumpridas, confirma uma narrativa de regeneração institucional e territorial, e tenta transformar esforço logístico em patrimônio simbólico. Para um país que já sediou edições invernales como Cortina d’Ampezzo (1956) e Turim (2006), os Jogos de 2026 em formato conjunto entre uma metrópole e uma região alpina representam também uma afinação entre tradição e modernidade — entre memória e aposta no futuro.
Não foi apenas um elogio aos gestores. O reconhecimento incluía voluntários, federações, estruturas municipais e regionais, atletas e equipes técnicas — atores que com frequência são reduzidos a estatísticas de público ou custo em narrativas mais superficiais. Ao chamá-los de “squadra vincente“, Malagò reatribui lugar ao coletivo e lembra que a qualidade de um grande evento esportivo se mede tanto pela logística de arenas e transportes quanto pela capacidade de criar uma experiência coletiva que resista ao apagamento das notícias.
O encerramento em Verona, palco de larga tradição cultural, acrescentou uma camada simbólica: não se tratou apenas de fechar um ciclo competitivo, mas de reafirmar uma país que — diante de desafios econômicos e institucionais — celebra, pelo menos por alguns dias, coerência entre promessa e entrega. A frase de Malagò funciona como um selo narrativo: a organização cumpriu, a Itália respondeu ao chamado, e resta agora perguntar sobre o legado prático dessas promessas — infraestrutura sustentável, itinerários turísticos, formação esportiva e políticas públicas para práticas invernais.
Concluo com uma leitura que me parece necessária: reconhecer o êxito não é encobrir problemas futuros. O discurso de Malagò é legítimo enquanto homenagem e motivação; será papel das instituições, das federações e das comunidades transformar o brilho efêmero de uma cerimônia em ganhos duradouros. Mas, por ora, a palavra proferida em Verona ecoa como um gesto de afirmação coletiva. Obrigado a quem fez isso acontecer — e que o orgulho declarado não se torne apenas memória de uma noite.
Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia






















