Giovanni Malagò, presidente da Fundação Milano Cortina, sintetiza o pós-Jogos com uma frase que cruzou a imprensa e a administração esportiva: “mission accomplished”. Mas o tom de celebração não anula a prudência institucional que ele defende para qualquer passo subsequente — especialmente se a pauta for uma possível candidatura de Roma para as Olimpíadas.
Em entrevista, Malagò recorda que os êxitos esportivos atraem rapidamente a vontade coletiva de repetir o feito (“os italianos são imbatíveis em subir no carro dos vencedores”), porém argumenta que a ambição precisa ser sustentada por unidade política e por ideias claras. “Sem unidade política e ideias claras não se candidata”, avisa. É um alerta que ultrapassa o plano estritamente esportivo: trata-se de reconhecer o evento como um projeto de Estado — com implicações culturais, urbanísticas e de imagem internacional.
Ao público jovem, Malagò dirigiu uma mensagem de estímulo: “sonhem em grande”. Citou um dado que, para ele, confirma a ressonância social dos Jogos: dois terços das pessoas entre 15 e 24 anos viram a cerimônia de abertura e muitos permaneceram acompanhando as competições. Para o dirigente, o fenômeno se explica por dois vetores: a capacidade de “carregar a equipe” — repetir aos atletas que jogavam em casa e eram protagonistas — e o apelo estético do evento. “A beleza dos lugares é um presente; devemos ser responsáveis ao promovê-la através do esporte”, disse, numa defesa que combina preservação do patrimônio e marketing territorial.
Malagò reconhece inspirações externas: citou Tony Estanguet, presidente do comitê organizador de Paris 2024, como referência para estratégias de mobilização e venda de ingressos — 250 mil bilhetes vendidos logo após a cerimônia de abertura, ritmo que se acelerou com as vitórias das equipes. É um lembrete prático: boa organização precisa encontrar sinergia entre espetáculo, desempenho esportivo e engajamento popular.
Sobre um eventual papel político-público seu, a pergunta sobre ser prefeito gerou resposta direta: “Me pediram e eu disse não”. Quanto a liderar outra missão olímpica — desta vez por Roma — Malagò adota tom mais cauteloso. Por razões de idade e por respeito ao ciclo necessário para preparar uma candidatura robusta, define como prematuro assumir esse protagonismo: “Seria presunçoso pensar nisso agora”.
O cronograma que ele traça deixou margem para a clareza institucional: a partir de 2028 deverá começar a construção formal de uma candidatura, com um dossiê que envolva três atores centrais — o Comitê Olímpico Internacional (COI), o governo (fornecendo garantias financeiras e legais) e o(s) município(s) envolvidos. Malagò sublinha outro requisito imposto pelo novo regulamento do COI: garantias de estabilidade política local e nacional por períodos de 4 a 5 anos — um fator sensível no calendário italiano, dado que em 2027 haverá eleições nacionais.
Por fim, o dirigente externou preocupação com as implicações geopolíticas do esporte: a possível participação de atletas russos e bielorrussos nas Paralimíadas é um tema que o inquieta. É uma lembrança de que decisões sobre inclusão e exclusão em competições transcendem o plano técnico e repercutem no terreno diplomático e ético.
Como repórter e analista, registro que as observações de Malagò articulam duas lições fundamentais: primeiro, grandes eventos são oportunidades de redefinir narrativas nacionais, mas exigem arquiteturas políticas e administrativas confiáveis; segundo, o esporte moderno convive permanentemente com decisões que são, ao mesmo tempo, técnicas e simbólicas — decidir sobre uma bandeira, um atleta ou uma cidade é decidir sobre identidade e projeção externa.






















