Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — No centro Coni Acquagranda, em Livigno, a Casa Italia abriu suas portas em clima de celebração para acolher Lucia Dalmasso, a primeira medalhista italiana do Milano Cortina 2026 no snowboard. A atleta conquistou o bronze no slalom gigante paralelo, e encontrou no centro olímpico um recepção que somou afeto, lembrança e sentido coletivo ao gesto esportivo individual.
A entrada do centro exibe nomes de medalhistas das Olimpíadas italianas — um painel que funciona como um lembrete da história e da responsabilidade que acompanha cada vitória. O nome de Lucia Dalmasso soma-se a essa narrativa já impressa na parede, um gesto institucional que traduz, em simbologia visual, a relação entre o esforço pessoal e a memória coletiva que o país constrói em torno do esporte.
Ao subir ao palco para o tradicional “Medal moment”, Lucia viveu uma sequência de emoções: sorriu, revisitou a prova no maxi‑tela e foi tomada pelas lágrimas. Em suas palavras, repetidas com delicadeza — “Piango da oggi pomeriggio” — há a cristalização de um percurso marcado por sofrimento, superação e reinvenção. Um acidente, doze anos atrás, que resultou na ruptura dos ligamentos cruzados de ambos os joelhos a obrigou a recalibrar ambições e técnicas. Com o apoio da mãe, Elena, e do pai, Pietro, ela trocou o esqui pelo snowboard e construiu, aos 28 anos, um retorno que agora se materializa numa medalha olímpica.
O pai, Pietro, foi personagem discreto e simbólico da jornada: o toque do seu campanaccio marcou os instantes mais desejados do dia, como se transferisse para o público e para a atleta um ritmo ancestral de celebração. No discurso, a dedica principal foi ao avô Giovanni, “o primeiro a me transmitir a paixão pela neve”, lembrança que aninha origem familiar e formação cultural — elementos centrais na leitura que faço do esporte como parte da identidade regional e nacional.
Depois da premiação, um momento quase pitoresco: a medalha de bronze chegou a cair, foi consertada por Lucia e, na pressa dos abraços, acabou caindo novamente. Hoje, entretanto, ela a mantém junto ao peito.
Do ponto de vista mais amplo, a festa em Livigno é um micro‑relato do que representam as Olimpíadas para comunidades locais e para o país: não se trata apenas de uma conquista individual, mas de uma imagem que alimenta narrativas sobre resiliência e continuidade. A trajetória de Lucia Dalmasso — do trauma às pistas, da mudança técnica à glória — é uma pequena grande história de reinvenção, que reforça como o esporte italiano continua a moldar memórias e referências coletivas.
Em termos práticos, a medalha também insere-se num contexto mais amplo de resultados: a conquista foi inicialmente registrada como a quinta medalha da delegação, cifra que, nas horas seguintes, viria a ser atualizada com outros bronzes, lembrando que cada dia olímpico reescreve a contagem e o sentido das vitórias.
Na Casa Italia de Livigno, entre bandeiras tricolores, luzes e os cinco anéis ao fundo, a imagem que fica é a de uma jovem atleta que transforma dor em narrativa pública — e ajuda a compor, com sua história, o mosaico maior da presença italiana em Milano Cortina 2026.





















