Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há algo de simbólico na presença de Louie Vito nos Jogos de Milano Cortina. Não apenas por ser um atleta veterano que teima em permanecer no circuito competitivo, mas porque sua história encarna uma ponte entre diáspora, tradição e a contemporaneidade do esporte. Nascido Louie Philip Vito III, com avós originários de Introdacqua, na Abruzzo, ele é ao mesmo tempo um cosmopolita e um autêntico paisà.
Vito vive há anos nos Estados Unidos, com a esposa — que joga golfe — na quente Arizona, e mesmo assim mantém vínculos afetivos e simbólicos com a Itália. Tem passaporte italiano, ensaia o idioma duas vezes por semana e, embora o falar ainda o faça hesitar, gesticula com naturalidade nas ocasiões públicas, numa linguagem corporal que lembra nomes como Brenda Lodigiani durante a Cerimônia de Abertura. Não é imitação: é herança.
Os Jogos em Livigno representam, para ele, outra camada desse retorno: são os primeiros olímpicos disputados num lugar que considera “casa”. É também sua terceira Olimpíada e a segunda vestindo a equipe azzurra. Compete no half pipe, disciplina que exige explosão, técnica e uma resistência física que pressiona, constantemente, coluna e joelhos. Aos 37 anos — fará 38 daqui a um mês — Vito assume o papel de decano: nunca antes um atleta dessa idade havia entrado nas disputas olímpicas do half pipe. Há, nisso, um gesto de desafio ao calendário biológico do esporte moderno e uma afirmação de continuidade.
É significativa a imagem de um veterano rivalizando contra competidores que têm metade de sua idade. Revela não só diferenças fisiológicas, mas também uma genealogia do ofício: a transmissão de experiência, osmose entre técnica e inteligência de corrida, e um posicionamento público que conecta fãs antigos e novos. Para a comunidade italiana e, em especial, para as comunidades de emigrantes, a figura de Vito atua como elo simbólico — um atleta que devolve visibilidade ao território de origem, ao mesmo tempo em que personifica a mobilidade global.
Além do valor esportivo, há planos pessoais que reforçam esse aspecto de retorno: Vito programou uma viagem de reconexão à Abruzzo com o pai, a irmã e a esposa. Não se trata apenas de turismo, mas de uma intenção mais profunda de tocar memórias, de reconhecer raízes e de partilhar com a família um lugar que combate a ideia de perda identitária.
Como analista, enxergo em Louie Vito algo que extrapola o resultado do half pipe: uma narrativa sobre como o esporte contemporâneo administra identidade, migração e pertencimento. Seu orgulho em competir em Livigno é, também, o orgulho de uma comunidade que celebra a persistência e a complexidade das trajetórias humanas. Entre saltos e rotações, há uma história que escreve sobre passado e presente: a do atleta que, mesmo globalizado, não renuncia ao laço com a terra dos antepassados.
Na pista, Vito seguirá medindo forças com gerações mais jovens. Fora dela, seguirá reforçando a ideia de que o esporte é um palco onde se duelam corpos, memórias e narrativas culturais. É essa interseção — técnica e identitária — que torna sua presença em Milano Cortina tão relevante.





















