Por Otávio Marchesini — A despedida anunciada de atletas que marcaram uma era nas pistas e trilhas dos esportes de inverno assume contornos de rito de passagem. Aos 35 anos, Francesca Lollobrigida, Dorothea Wierer e Federico Pellegrino fecharam, na edição de Milano Cortina 2026, capítulos extensos de competência esportiva e presença simbólica. Não se trata apenas do fim de carreiras: é a retirada de figuras que traduzem métodos, culturas e escolhas que influenciaram gerações.
As cenas são simples e, por isso, contundentes. Depois da última mass start em Rho, com um quarto lugar que a fez se cobrir de arrependimento — «a cavolata l’ho fatta io, dovevo lanciare la volata e invece sono rimasta indietro» —, Francesca Lollobrigida tirou os patins. Ela deixa os Jogos com dois ouros que gravaram seu nome em maiúsculas em Milano Cortina. Ainda no calor da prova, partiu ao encontro do mar: já estava no carro, rumo a Ladispoli, para ver o Mediterrâneo com Tommaso, numa imagem que confirma a necessidade de voltar às dimensões íntimas depois de anos sob reflexos e holofotes.
Em Anterselva, sob neve densa, Dorothea Wierer viveu a ambivalência do adeus. Um quinto lugar com disparos errados no estande e, ao mesmo tempo, o calor do público que nunca a deixou sozinha: «Il calore dei tifosi mi ripaga di tutte le durezze di questo viaggio», disse. Aos 35 anos, com o prata na staffetta mista na bagagem, ela posa a carabina. Seu legado, nos termos que ela própria enuncia, é «a mentalidade do trabalho»: um modo de operar que ajudou a relançar o biatlo feminino italiano, dando-lhe visibilidade e consistência, sem, no entanto, renegar a necessidade de tempo pessoal em esportes que, a nível internacional, muitas vezes valorizam a obsessão pelos resultados.
O esqui de fundo também perde um dos seus nomes mais reconhecíveis. Federico Pellegrino, impossibilitado de se despedir em pista — uma febre de 39º o afastou da prova de 50 km — escreveu uma carta de despedida publicada no site da FISI. Ele retorna a Gressoney onde o aguardam Greta e os filhos. A paternidade foi decisiva em seu raciocínio sobre o futuro: «Quando me tornei pai comecei a me fazer perguntas sobre o que viria depois». Pellegrino planejou o depois com antecedência: cargos institucionais (no Conselho CONI desde 2021 até 2028), estudos (inscrito na LUISS, economia e management) e um empreendimento hoteleiro com abertura prevista para o verão de 2027.
Há uma leitura coletiva possível nesses três desenlaces. Primeiro: a gestão da carreira esportiva passou a exigir planejamento profissional e institucional, seja pela incerteza física, seja pela demanda por continuidade financeira e identidade pós-competição. Segundo: a presença prolongada desses atletas nas grandes competições fortaleceu não só resultados, mas narrativas — a mentality do trabalho que Wierer cita, a visibilidade conquistada por Lollobrigida nas pistas geladas, a aposta de Pellegrino em papéis públicos e formação acadêmica.
Também é preciso reconhecer que longevidade não é ilimitada. A exceção que confirma a regra apareceu nas pistas: o holandês Jorrit Bergsma conquistou a mass start aos 40 anos, lembrando que o tempo, para alguns, estende capacidades. Mas mesmo quando os calendários e os corpos começam a fechar ciclos, o impacto social permanece. Clubes, federações e novos atletas herdarão práticas, rotinas e escolhas — e terão de decidir como preservá-las ou transformá-las.
O adeus destes 35enni é, portanto, múltiplo: pessoal e público, técnico e simbólico. Eles não apenas deixam medalhas; deixam modelos de vida que exigem interpretação crítica: como organizar a formação de atletas que sejam profissionais dentro e fora do esporte? Como as estruturas (CONI, federações, clubes) vão incorporar essa experiência? Responder a essas perguntas é o verdadeiro trabalho que se abre depois da despedida.
Francesca, Dorothea e Federico partem em direções distintas — mar, casas e projetos — mas com uma condição comum: a vontade de entender como funciona a vida além das pistas. É um gesto de maturidade histórica: encerrar um ciclo para testar, fora da competição, o que permanece de um legado.





















