Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — No calor cultural de Milano-Cortina 2026, a pista de patinação longa ofereceu uma narrativa que ultrapassa o resultado imediato: Francesca Lollobrigida somou mais um triunfo ao seu percurso e confirmou, com frieza tática e resistência, a condição de protagonista do pattinaggio velocità contemporâneo.
No Milano Speed Skating Stadium, a romana de 35 anos — atleta da Aeronautica Militare e que passa parte do ano treinando na Holanda — venceu os 5.000 metros com o tempo de 6:46.17, garantindo o segundo ouro individual nesta edição dos Jogos, depois do sucesso nos 3.000 metros. A disputa teve contornos raros de dramaticidade: as diferenças entre as três primeiras foram de apenas 17 centésimos, um resultado incomum para a distância.
A prova foi disputada sob a pressão do desempenho neerlandês: a rival diretamente à frente abriu com ritmo forte e ameaçou o resultado. Lollobrigida respondeu com uma estratégia precisa — saída agressiva, controle na fase intermediária e uma aceleração final decisiva nos últimos três giros. Parte da vantagem foi assegurada graças a um último giro de 31,86 segundos, comparado com parciais regulares entre 32,00 e 32,74 nos setores anteriores.
O pódio foi completado pela neerlandesa Conijn, prata por meros 0,10 segundos (6:46.27), e pela norueguesa Ragne Wiklund, bronze a +0,17 (6:46.34). A combinação de tempos traduz a intensidade da disputa e a evolução técnica da prova: numa distância tradicionalmente dominada por neerlandesas e nórdicas, a italiana imprimiu um capítulo de resistência tática.
Para o contexto italiano, o ouro de Lollobrigida representa muito mais que uma medalha. É a sexta medalha dourada da delegação italiana em Milano-Cortina 2026 e amplia um ciclo que reaproxima a Itália de tradições olímpicas recentes. Lollobrigida, mãe de Tommaso e sobrinha-neta da atriz Gina Lollobrigida, já havia entrado numa pequena galeria de exceção ao conquistar a dobradinha 3.000–5.000 metros — feito repetido por poucas atletas na história olímpica do speed skating (figuras como Yvonne van Gennip, Gunda Niemann, Claudia Pechstein e Martina Sáblíková).
Do ponto de vista técnico, a performance de Francesca reafirma a eficácia de modelos de treino que mesclam estadias na Holanda com a base italiana: resistência, técnica de passada e gestão das readaptações entre ritmos longos e explosões finais. A plateia presente no estádio reagiu com um clamor que, mais que entusiasmo, refletiu reconhecimento por uma execução quase cirúrgica.
No mesmo dia, o esporte de deslize trouxe boas notícias: a equipe italiana de slittino garantiu o bronze no team relay no Sliding Center de Cortina d’Ampezzo, com a formação Verena Hofer, Emanuel Rieder–Simon Kainzwaldner, Dominik Fischnaller e Andrea Voetter–Marion Oberhofer, marcando 3’42″521. Um resultado que insere o slittino italiano entre as potências emergentes da disciplina e soma mais uma medalha à campanha nacional.
Mais do que um ouro a mais para o quadro, a vitória de Lollobrigida é uma peça narrativa: conecta trajetórias pessoais, redes de formação internacionais e uma história esportiva italiana que busca reequilíbrio e reconhecimento em modalidades onde a tradição alheia parecia impositiva. Em cortes objetivos, é uma exibição de estratégia; em perspectiva, um reforço simbólico para o esporte italiano na era pós-Torino.






















