Francesca Lollobrigida acrescentou mais um capítulo à sua trajetória olímpica em Milano Cortina: após subir ao pódio e garantir a sua segunda medalha de ouro — desta vez na prova dos 5.000 metros do patinagem de velocidade — a primeira atitude da atleta foi ligar para a família.
Do alto da alegria esportiva, Lollobrigida contactou imediatamente o filho Tommaso e a mãe, que estavam no Lazio. A opção foi consciente: o menino participava de uma festinha de Carnaval no berçário, vestido de bombeiro, e a atleta preferiu que ele não perdesse o evento por causa das longas horas de viagem até as provas. “Não queria que ele se perdesse essa festa”, explicou. A logística familiar prevê que Tommaso volte com o marido de Lollobrigida no dia da prova de mass start, e a esperança da atleta é retornar para casa junto com eles.
Mais do que um gesto íntimo, a cena traduz prioridades que frequentemente ficam à margem do debate público sobre o esporte de alto rendimento: para Lollobrigida, a família mantém-se no topo das escolhas mesmo em meio à tensão e ao espetáculo olímpico. Depois de conquistar o primeiro ouro, a patinadora havia prometido à mãe que, na sequência, procuraria se divertir, recuperar o sorriso e reduzir a pressão — conscientes as expectativas externas sobre uma repetição de conquistas.
Em termos esportivos, a estratégia emocional foi tão relevante quanto a técnica: ao transformar a competição em experiência prazerosa, Lollobrigida conseguiu neutralizar o peso das expectativas e reproduzir um rendimento de topo. Esse comportamento não é ocasional; faz parte de uma tradição contemporânea de atletas que administram cuidadosamente saúde mental, papéis sociais e desempenho — um gesto de profissionalismo que reverbera para além da pista.
Como repórter e analista, observo que episódios assim iluminam aspectos estruturais do esporte italiano e europeu: o papel das redes de apoio familiar, a visibilidade das mães-atletas e as demandas logísticas impostas por um calendário olímpico que cruza identidades regionais — aqui, a distância entre o centro político-cultural do país e os palcos esportivos do Norte. A imagem da vencedora que imediatamente corre ao encontro do filho sublinha uma narrativa que não é só pessoal, mas também social: vencedoras que equilibram sucessos internacionais com responsabilidades íntimas ajudam a redefinir modelos de referência para gerações futuras.
No final, Lollobrigida sintetizou a opção que muitos atletas fazem em campanhas tão intensas: “Eu já ganhei o ouro, então tentei me divertir e ir tranquila”. A frase é curta, mas densa: revela consciência do lugar público que ocupa e a tentativa deliberada de preservar um núcleo familiar que, talvez, seja a base mais sólida para projetar novos momentos de excelência.
Por Otávio Marchesini — Espresso Italia





















