Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Foi um momento de rara intensidade simbólica: pela primeira vez nos Jogos de Milano Cortina soou o hino de Mameli em cerimônia olímpica, e a responsável por transformar aquela nota em um gesto coletivo de afeto e memória foi a veterana Francesca Lollobrigida. A atleta italiana conquistou o ouro na prova dos 3000 metros no dia em que completou 35 anos — nasceu em Frascati em 7 de fevereiro de 1991 — e subiu ao pódio com os olhos úmidos, cantando a canção nacional enquanto segurava a medalha recém-ganha.
Mais do que um triunfo esportivo individual, a cena teve contornos de narrativa nacional: a celebração do ouro em solo italiano, a execução do hino de Mameli pela primeira vez nesta edição dos Jogos e a emoção pública de uma atleta que encarna persistência e profissionalismo. Para além do giro de manchetes, vale a pena decantar o significado desse instante. Esportes de alto rendimento funcionam como crônicas da vida coletiva — e poucos episódios traduzem tão bem essa função quanto um pódio que reativa memórias e identidades.
Francesca Lollobrigida não é um fenômeno de um dia: sua trajetória representa décadas de investimentos, rotinas de formação e também o papel crescente das mulheres nas pistas de velocidade da Itália. Vencê-lo justamente no seu aniversário sublinha uma dimensão quase ritual do esporte: pontos de virada pessoais que reverberam no imaginário público. A imagem da atleta cantando, medalha junto ao peito, é ao mesmo tempo íntima e coletiva.
Do ponto de vista histórico, a execução do hino de Mameli em Milano Cortina observa-se como um dos pequenos marcos que os Jogos deixam — não apenas por serem disputas de competição, mas por criarem símbolos que persistirão no arquivo emocional do país. Em momentos como esse, um resultado esportivo é também um acontecimento cultural: as cores da bandeira, os acordes do hino, a voz de um(a) atleta marcando a narrativa nacional por alguns instantes.
Em termos práticos, a vitória nos 3000 metros acrescenta um capítulo relevante ao ciclo competitivo da patinagem de velocidade italiana: oferta visibilidade para o esporte, inspira gerações mais jovens e fortalece a relação entre as bases de formação e as estruturas de elite. O pódio, daquele modo, assume função pedagógica e política — sinaliza prioridades, recompensa trajetórias e reaproxima a população de um cotidiano esportivo muitas vezes distante.
Ao final, a imagem que ficará é simples e densa: uma atleta italiana, no auge de sua carreira madura, que celebra um ouro num dia que é duplamente seu — pessoal e nacional. A música de Mameli tocou, e a Itália, por alguns minutos, cantou junto.
Fotografia: Francesca Lollobrigida emocionada no pódio, segurando a medalha de ouro e cantando o hino italiano.





















