Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Em uma sequência que misturou surpresa e silêncio reverente, a tarde na pista de Milano Cortina foi marcada pela queda de Lindsey Vonn, cuja prova durou apenas 12 segundos. A campeã — figura que se move entre o mito e a prática esportiva — sofreu um impacto violento, foi socorrida no local e posteriormente transferida de helicóptero para tratamento em uma estrutura hospitalar maior.
O episódio ocorreu na parte alta do traçado, pouco depois de um salto, quando Vonn bateu com o ombro em uma porta de corrida antes do trecho de velocidade conhecido como schuss. O corpo girou no ar e o pouso se deu em posição atravessada; a compressão nas pernas foi imediata e evidente. Testemunhas contaram a imagem de bandeiras estendidas que se curvaram diante do acontecido e de figuras famosas nos camarotes — como Snoop Dogg — cobrindo o rosto diante do replay do acidente.
Imediatamente atendida pelo socorro alpino, Vonn foi içada e levada ao Policlinico Codivilla em Cortina para os primeiros exames. Em função da gravidade das lesões, houve a evacuação aérea para o hospital Ca’ Foncello, em Treviso, onde, no primeiro pomeriggio, passou por cirurgia para reduzir uma fratura deslocada na perna esquerda — a mesma afetada no incidente de 31 de janeiro em Crans-Montana, quando rompeu o ligamento cruzado.
Fontes do entorno do atleta informaram que a intervenção foi necessária dada a severidade do trauma. A atleta foi sedada, mas não precisou de suporte respiratório; o staff americano limitou-se a afirmar que ela se encontra “em condições estáveis e em boas mãos”, assistida por uma equipe conjunta de médicos italianos e americanos. Detalhes clínicos mais extensos permanecem sob a responsabilidade da equipe e da família, que optaram por controlar a divulgação.
Para quem acompanha a carreira de Vonn, a cena tem camadas adicionais de significado. Aos 41 anos, ela havia construído um projeto pessoal de retorno após a aposentadoria de 2019 e cirurgias complexas, incluindo a implantação de uma prótese de titânio no joelho direito, fruto de anos de reparos e reconstruções em ambos os membros inferiores. O objetivo declarado era buscar a medalha olímpica que faltava ao seu palmarés desde Vancouver 2010. Esse objetivo transformou a temporada de retorno em uma narrativa de resistência, cuidado e cálculo médico.
A irmã, Karin, resumiu em poucas palavras o sentimento que circulou entre os presentes: “A última coisa que eu teria querido ver”, disse em entrevista à emissora americana, lembrando a entrega total da campeã. A fala ecoa uma percepção recorrente sobre Vonn: uma atleta que sempre deu mais do que o exigido pelo esporte, personificando, ao mesmo tempo, os riscos e as expectativas que incidem sobre corpos estelares.
Do ponto de vista institucional, o caso levanta questões operacionais e simbólicas: como as estruturas de acolhimento das grandes competições lidam com rotinas de transporte e cirurgia emergencial; como a imagem pública de um retorno prompt ao alto rendimento se choca com os limites do corpo; e que caminhos de reabilitação — e decisão de futuro — se abrem depois de uma lesão dessa gravidade.
Nas próximas horas, a atenção estará voltada ao boletim clínico oficial e às decisões do staff sobre a continuidade do tratamento e o plano de recuperação. A história que Vonn vinha escrevendo de volta às pistas agora transita, por força do acontecido, para outro capítulo — aquele em que a medicina, a gestão da carreira e a memória coletiva se encontram para discutir o que representa, hoje, a tradição do esqui na vida de uma atleta que construiu uma parte considerável da memória recente do esporte.
Atualizaremos esta reportagem assim que houver comunicados médicos ou declarações oficiais da equipe.





















