Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um depoimento contido e direto do leito do hospital, a veterana do esqui alpino Lindsey Vonn, 41 anos, anunciou que será submetida a mais uma intervenção cirúrgica — a quarta operação desde a queda ocorrida na descida de domingo em Cortina. O vídeo foi gravado no hospital Ca’ Foncello, em Treviso, e publicado nas redes sociais.
“Aqui no hospital os dias foram bastante difíceis. Finalmente me sinto mais eu mesma, mas tenho pela frente ainda uma estrada muito longa“, disse Vonn. Em seguida, detalhou o quadro: “Amanhã terei outra cirurgia e espero que corra bem; depois talvez eu possa deixar o hospital e voltar para casa, onde então precisarei de outra operação. Ainda não sei exatamente como será, mas mais ou menos é assim neste momento”.
O relato é factual e comedido — sem dramatizações de ocasião, apenas a enumeracão das consequências práticas de um acidente grave. No mesmo vídeo, a campeã destacou o apoio recebido: visitas de amigos e familiares, além das cartas, bilhetes e flores que lhe chegaram e que descreveu como gestos de “uma gentileza enorme”.
No dia seguinte à queda, Vonn havia informado que sofrera uma fratura complexa da tíbia da perna esquerda. As equipes médicas qualificaram a situação como estável, mas sujeita a múltiplos procedimentos cirúrgicos para correção adequada. Na quarta-feira anterior, a atleta já havia comunicado ter passado por uma terceira intervenção.
O episódio acrescenta mais uma página à já marcada trajetória de Vonn, que decidiu competir na descida mesmo carregando, de maneira anterior, a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo sofrida durante a Copa do Mundo em Crans-Montana. Essa disposição para competir, comum em atletas de elite, traduz uma tensão entre ambição, identidade e os limites físicos que o esporte de alto rendimento costuma empurrar ao limite.
Enquanto alguns relatos tratam o acidente apenas como mais um episódio de drama esportivo, é necessário lê-lo também como um indicativo das pressões institucionais e simbólicas que marcam eventos de alto prestígio como os testes para os Jogos de Inverno. Atletas veteranos como Vonn carregam não apenas expectativas médicas, mas memórias de carreiras e papéis de referência que tornam a recuperação um processo que cruza o pessoal, o coletivo e o institucional.
Nas próximas horas, a atenção se desloca para o andamento da quarta cirurgia e para o cronograma de reabilitação que será necessário para uma atleta cujo corpo já suporta cicatrizes e reparos anteriores. A trajetória de Vonn, que atravessa gerações do esqui, permanece, assim, um capítulo em aberto: entre a determinação que a definiu e os riscos inerentes a uma modalidade que se mede em décimos e em coragem.
Continuaremos acompanhando os desdobramentos clínicos e as implicações esportivas dessa lesão, sem perder de vista a dimensão humana do processo de recuperação.





















