Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Depois do brilho e das expectativas superadas dos Jogos Olímpicos, Milano Cortina 2026 vira a página para um capítulo que busca traduzir o esporte em mensagem cultural: amanhã, na Arena di Verona, será realizada a cerimônia de abertura dos Paralímpicos, batizada como Life in Motion.
O diretor artístico Alfredo Accatino, da Filmmaster, guia a proposta. Em conversa com a Espresso Italia, Accatino destacou o propósito de estender a corrente emocional das Olimpíadas sem cair em repetições. “Saímos de um resultado que superou expectativas; isso nos deu impulso”, disse. A ideia, explica ele, foi trabalhar em continuidade com a cerimônia de encerramento olímpica, mas com um recorte próprio, centrado no conceito de movimento em múltiplas camadas.
A arquitetura imponente da Arena di Verona foi escolhida como palco não apenas por seu simbolismo histórico, mas porque o local permite articular uma narrativa em dois atos — de Beauty in Action a Life in Motion — em que o deslocamento físico torna-se também metáfora de transformação social.
Do ponto de vista temático, a cerimônia aposta em valores universais. Entre os eixos principais estão a paz, a inclusão e o amor: a paz, evocada num momento em que o cenário internacional acentua as contradições; o amor, pensado como um tributo à vida; e a inclusão, tratada como direito ao espaço — não apenas simbólico, mas concreto, ligado à acessibilidade arquitetônica e cultural.
Essa intenção é refletida também na escala artística. A programação reúne artistas internacionais e nomes que representam juventude e território: Stewart Copeland, histórico baterista e fundador dos Police, fará um dueto rítmico com um baterista com deficiência e com uma jovem percussionista veronese; os Meduza, Miky Bionic e Dardust apresentarão um projeto musical concebido para a noite. No plano nacional, duas vozes emergentes — as recentes vencedoras do X Factor, Mimì Caruso e Rob — dividirão o palco em uma proposta deliberada de contaminação artística entre gerações e geografias.
Transmitida em prime time pela Rai 1, a cerimônia é, nas palavras de Accatino, “um espetáculo e um gesto”: um gesto público que reitera a centralidade do esporte como dispositivo de memória coletiva e de reinterpretação das normas sociais. Como observador que vê nos estádios e nas competições reflexos mais amplos da sociedade, interpreto Life in Motion como uma tentativa de transformar emoção em argumento — um argumento sobre quem tem o direito de ocupar espaços, ser visto e participar.
Na noite de abertura, portanto, não estará em jogo apenas o espetáculo imediato, mas uma reafirmação cultural: o evento procura mudar a percepção, recolocar o olhar público e fazer da visibilidade um motor de mudança. A Arena de Verona, cenário ancestral, volta a ser lugar de invenção contemporânea — onde o movimento deixa de ser apenas gesto atlético e passa a ser enunciado político e estético.
Data: 6 de março de 2026 — transmissão em horário nobre pela Rai 1. Uma cerimônia para observar com atenção.





















