Por Otávio Marchesini — Em meio à intensidade competitiva que toma conta da Südtirol Arena, a discussão mais decisiva sobre os Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina 2026 acontece fora das pistas: a herança deixada para o território. A visita de Arram Kim, delegado do Comitê Olímpico Internacional para Impacto e Legado, a Anterselva ofereceu um retrato nítido de como um grande evento pode ser convertido em projeto de longo prazo para uma região alpina sensível e estratégica.
“O estádio de biatlo de Anterselva já é um local icônico”, observou Arram Kim, “mas graças aos Jogos torna-se um centro esportivo de vanguarda, preparado para os desafios do futuro”. A avaliação do CIO não é apenas estética: traduz-se em investimentos concretos, sobretudo na esfera da mobilidade. A requalificação de 13 estações ferroviárias na área local é o exemplo mais evidente dessa transformação — uma operação que Kim definiu como “maravilhosa” e que, nas suas palabras, estabelece o transporte por trilhos como alicerce de uma legado sustentável.
Os números, apresentados por Vallazza, corroboram a tese: a mudança do predomínio do transporte rodoviário para o ferroviário tem sido efetiva. Mais de 400 trens colocados em serviço desde o início do evento registraram uma taxa de cancelamento inferior a 1% — uma regularidade da ordem de 99% que reflete a coordenação entre as empresas ferroviárias, a RFI e o assessoramento público responsável pela mobilidade.
Do meu ponto de vista, enquanto observador dos vínculos entre esporte e sociedade, essa ênfase na mobilidade não é um detalhe técnico: é uma escolha estratégica que redefine o legado. Estádios e pódios são memorializados em fotografias; a infraestrutura de transporte reescreve o mapa das oportunidades econômicas e ambientais. Em regiões alpinas, onde o equilíbrio ecológico é frágil, transferir fluxo do asfalto para os trilhos não apenas melhora a eficiência logística, mas altera a relação entre comunidade e território.
Além disso, o modelo de logística adotado em Anterselva — com centro de controle integrado e uma visão de hospitalidade adaptada à altitude — pode servir de padrão para outras sedes de eventos de inverno. A capacidade de combinar operações de segurança, transporte e acolhimento com uma perspectiva sustentável é o tipo de legado que resiste ao calendário dos Jogos e se incorpora ao cotidiano regional.
Resta agora acompanhar a concretização dessas promessas: a manutenção dos investimentos, a gestão pós-evento das instalações e a efetiva utilização comunitária das obras. O reconhecimento do CIO é significativo, mas o verdadeiro teste do legado será a sua incorporação duradoura ao tecido social e econômico do Alto Adige. Se a experiência de Anterselva confirmar a expectativa, estaremos diante de um exemplo em que o megaevento foi, de fato, uma alavanca de modernização e cuidado ambiental — e não apenas uma janela temporária de visibilidade internacional.






















