Johannes Klaebo completou o círculo da excelência na prova de 50 km em técnica clássica e consagrou-se novamente como a figura dominante do esqui de fundo em Milano‑Cortina. A prova, marcada por um retorno às origens do fundo — corridas em binário, sem artifícios de entretenimento — durou 2h05 e teve seu desfecho dramático a 800 metros do fim, na íngreme Collina Zorzi, junto ao Lago di Tesero.
Naquele ponto decisivo, seguiam lado a lado os noruegueses Martin Nyenget e Klaebo. Nyenget, já reconhecido como campeão mundial e olímpico, parecia a alternativa mais óbvia; Klaebo, por outro lado, chegava embalado por uma sequência avassaladora em Val di Fiemme. Ao invés de ceder, porém, Johannes desferiu o que a imprensa já chama de Passo Klaebo: um ataque concentrado e fulminante de 31 segundos em que alcançou picos de 18 km/h numa rampa estimada em 15% — velocidade inimaginável naquela inclinação — e deixou Nyenget literal e fisicamente para trás.
O norueguês descreveu a cena com a precisão de quem domina a própria pulsação: “Não sabia como meu corpo reagiria a esse ataque: eu estava exausto — explicou Klaebo — mas parti o mais rápido que pude rumo ao cume. Quando vi que abria alguns segundos, senti um enorme alívio”. Foram segundos suficientes para culminar no seu sexto ouro em uma semana de competições em Tesero e no que alguns já contam como o seu décimo primeiro título olímpico — um marco que o coloca atrás apenas de Michael Phelps no quadro histórico de ouro olímpico.
Mais do que estatística, a vitória acentua um enigma fisiológico. Klaebo é tratado pelos especialistas como um caso fora do padrão: vive em quase clausura, dedica-se unicamente ao treino e alimenta uma rotina construída para maximizar rendimento e recuperação. Em campo semântica esportiva, é frequente vê‑lo comparado a nomes como Karsten Warholm — não pela fúria descontrolada, mas pela capacidade de suportar e recuperar de níveis extremos de ácido láctico, superiores a 20 mmol/L em alguns testes, números que aniquilariam instantaneamente os músculos da maioria dos mortais.
Na prova de revezamento que abriu a sequência vitoriosa, Klaebo mostrou ainda outra faceta: a de modulador fisiológico, deslocando parâmetros de esforço de forma que lembram a polivalência de Jakob Ingebrigtsen nas pistas de atletismo. Em Tesero, porém, o espetáculo foi mais simples e talvez mais revelador: uma subida curta, um ataque preciso, a ciência do sprint aplicada a 50 km de resistência.
Como repórter e analista, é tentador reduzir o fenômeno a adjetivos — “marziano”, “monstro”, “fóssil vivo” —, mas o que Klaebo representa vai além do rótulo. É a síntese de uma cultura esportiva norueguesa que conjuga formação de base, intensidade técnica e uma disciplina quase monástica. Os estádios e as pistas contam histórias sociais: ali, o triunfo de Klaebo registra a continuidade de um modelo que transforma território, identidade e gestão esportiva em vantagem competitiva.
No fim, restou a corrida, o suspiro dos que ficaram para trás e a imagem do norueguês diante do público: mais um ouro, mais um capítulo que os fisiologistas ainda tentarão decifrar. Em termos práticos, a sequência em Val di Fiemme — seis vitórias em sete dias — e o marco olímpico consolidam um legado em construção, cuja importância transcende o cronômetro e reverbera na história do esporte.



















