Por Otávio Marchesini — A noite da Champions League em Turim ficou marcada por uma combinação de honra recuperada e frustração coletiva. A Juventus, reduzida a dez jogadores durante todo o segundo tempo, forçou a extensão do duelo ao vencer por 3-0 no tempo regulamentar, mas acabou derrotada nos minutos finais da prorrogação: quem abriu o placar decisivo foi Osimhen, que marcou e não comemorou.
Do ponto de vista esportivo e financeiro, a eliminação significa perda da vaga nas oitavas e dos recursos da Uefa; do ponto de vista simbólico, porém, a noite representa outra coisa. A equipe bianconera mostrou uma reação coletiva que diz mais sobre identidade e caráter do que sobre simples tática: mesmo em situação desesperadora — havia três gols a recuperar após o 5-2 do jogo de ida — o time não se resignou. Jogou de peito erguido, com determinação quase pugilística, e arrancou a prorrogação contra todas as probabilidades.
O episódio que mudou a dinâmica aconteceu pouco antes da metade do jogo: uma decisão controversa do árbitro português João Pedro da Silva Pinheiro (38 anos) acabou com um cartão que, transformado em vermelho pelo recurso ao VAR, deixou o adversário, Kelly, fora de jogo. A repetição mostrou um contato involuntário no duelo com Yilmaz, mas a interpretação do árbitro e a intervenção do vídeo deram seguimento à expulsão — uma chamada que incendiou críticas e influenciou o desenrolar do confronto.
Ante a necessidade de um jogo mais audacioso, Spalletti optou por colocar Yildiz como referência ofensiva, apoiado pelos dribladores Boga e Zhegrova, além de soluções como Conceição e David. A mudança deu frutos: o primeiro gol veio na sequência de iniciativa ofensiva, e o segundo, anotado por Gatti, recolocou a Juventus com esperança real de virada. Ainda houve chances claras para o terceiro — um pallonetto alto de Thuram (que deixou o banco em lágrimas) e um tiro na trave por Kenan após cruzamento cirúrgico de Boga —, até que o terceiro saiu em jogada de cabeça, com McKennie finalizando após uma torre aérea.
No outro lado, a equipe visitante tentou explorar nervos e quedas, com reações teatrais que, por vezes, interromperam o ritmo. O goleiro adversário fez defesas importantes, e houve momentos de tensão com chutes de jogadores como Sanchez e o próprio Osimhen antes da prorrogação. Ainda houve lances duros no meio-campo — entradas mais ríspidas que simbolizaram a batalha física dos 120 minutos.
Ao final, ficou a sensação ambígua: a Juventus perdeu a continuação na competição, mas ganhou algo menos palpável e talvez mais duradouro — uma prova de personalidade coletiva que, em termos de memória esportiva, vale mais do que os prêmios imediatos. A eliminação não apaga a leitura mais ampla: times e nações constroem-se também em partidas como esta, quando a dignidade do jogo encontra a resistencia dos bancos, a precisão das arbitragens e o peso das narrativas europeias.
Para a torcida, resta a frustração pela oportunidade perdida; para o clube, um espelho do trabalho a ser reformulado — não apenas no elenco ou na tática, mas na forma como se encara o futebol como palco social e político na Europa contemporânea.






















