Por Otávio Marchesini — Em uma prova que condensou gerações, técnicas e ambições continentais, o norte-americano Jordan Stolz, 21 anos, confirmou em grande estilo o favoritismo e conquistou a medalha de ouro nos 1000 m do patinagem de velocidade em Milano‑Cortina 2026.
Com uma última volta descrita pela cronometragem e pelos comentaristas como supersónica, Stolz cruzou a linha em 1’06″28, tempo que não só lhe deu a vitória como quebrou o recorde olímpico anterior, estabelecido em Salt Lake City 2002 por Gerard Van Velde (1’07″18). O jovem do Wisconsin já detém o recorde mundial nos 1000 m — 1’05″37 — e transformou esta corrida na primeira confirmação concreta de uma edição dos Jogos que pretende assinar como protagonista: a meta declarada são três ou até quatro medalhas de ouro, caso participe na mass start marcada para 21 de fevereiro.
Em segundo lugar ficou o holandês Jenning de Boo, que manteve a pressão e terminou a apenas meio segundo do vencedor. A medalha de bronze sorriu ao chinês Ning, responsável por colocar a China no pódio em uma distância que tradicionalmente vê o domínio neerlandês. A sequência dos cinco primeiros foi completada pelo polonês Zurek e pelo holandês Joep Wennemars — este último ficou fora do pódio em circunstâncias que adicionaram uma dimensão conflituosa à prova.
O episódio envolveu o patinador chinês Lian, que sofreu desclassificação depois de um contato que danificou o desempenho de Wennemars; o incidente gerou tensão nos bastidores e até risco de confronto físico, lembrando que o esporte de alto rendimento empurra atletas e equipes ao limite não apenas técnico, mas também psicológico.
Para a Itália, a performance mais comentada veio do jovem Daniele Di Stefano. Com 1’08″17, Di Stefano chegou a liderar a prova por um período e fechou em um meritório sétimo lugar — resultado que, além de premiar a entrega do atleta, funciona como um sinal prático e simbólico para a prova dos 1500 m: há matéria-prima e lógica de evolução em um patinador que pode representar continuidade e esperança para a casa-sede.
Do ponto de vista histórico e cultural, a vitória de Jordan Stolz configura várias leituras. Primeiro, um reposicionamento geográfico: embora a Holanda continue sendo uma referência inquestionável na velocidade em gelo, a emergência estadunidense mostra como investimentos em formação e centros especializados estão mudando o mapa competitivo. Segundo, a performance reafirma a importância da gestão do ciclo olímpico — a possibilidade de um atleta tão jovem carrear múltiplos títulos em uma mesma edição coloca em cheque modelos tradicionais de longevidade e especialização.
Por fim, esta prova recorda que recordes olímpicos e mundiais são marcos móveis: atravessam décadas, sobrevivem a revoluções técnicas e, por vezes, são superados por patinadores que carregam tanto a capacidade física quanto o senso de oportunidade. A jornada de Stolz nos próximos dias, especialmente rumo aos 1500 m e à mass start, terá significado além de medalhas — será um termômetro do que o patinagem de velocidade contemporâneo representa em termos de juventude, profissionalização e geopolítica esportiva.
11 de fevereiro de 2026






















