Por Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia
Entre cápsulas de treino, análises de pista e rotinas de aquecimento, surgiu nas delegações uma singela disputa cultural: qual é o doce que sustenta os atletas durante os Jogos? A resposta mais viral até agora vem de um jovem talento suíço do snowboard, Jonas Hasler, de 20 anos, que transformou o tradicional tiramisù — sobremesa nascida em Treviso — em uma espécie de mascote emocional das Olimpíadas.
Ao chegar ao vilarejo de atletas em Livigno, Hasler gravou um dos vídeos mais compartilhados da semana, relatando, em tom descontraído, a descoberta do que chamou de “o novo muffin de chocolate das Olimpíadas: o tiramisù“. A comparação é mais bem-humorada que técnica: sabemos que o tiramisù é feito de creme de mascarpone, biscoitos savoiardi e café, mas a curiosidade e a paixão do atleta deram outro contorno à degustação.
No primeiro vídeo, ele descreve a dificuldade em encontrar o doce — “Sparisce sempre, ora lo provo, ho sentito dire che è pazzesco” — e, depois do primeiro pedaço, explode em celebração: “Ne prenderò ancora!”. Em poucos segundos, o registro acumulou mais de dois milhões de visualizações e 372 mil likes, alcançando um público além do espaço estritamente esportivo.
O episódio repetiu-se na noite da cerimônia de abertura: Hasler reapareceu em outro vídeo, já reconhecendo a fome tardia pós-evento e escolhendo uma porção generosa — descreveu-o como “o melhor tiramisù que já provei na vida”. Esse segundo clipe somou cerca de 300 mil visualizações e 33 mil curtidas. Entre um treino e outro, ele teria chegado a pegar três pedaços; em outra ocasião, confessa ter surtado por não encontrar o doce na cantina do vilarejo. Cultura gastronômica e rotina atlética, por ora, coexistem sem remorso pelas tabelas nutricionais.
O fascínio do jovem suíço tem relevância além do humor: ilustra como pratos regionais se tornam símbolos móveis da identidade coletiva, especialmente quando projetados em cenas globais como as Olimpíadas. O tiramisù, sobremesa originária do Veneto, ganhou ainda mais espaço este ano com uma demonstração gastronômica promovida pela região de Cortina, em um estande que permanecerá aberto durante toda a competição.
Há, aqui, duas leituras possíveis. A primeira é a óbvia e leve: um atleta descobrindo um prazer simples e compartilhável — e a internet amplificando-o. A segunda é menos superficial: a circulação de alimentos tradicionais em eventos internacionais funciona como soft power cultural, projetando memórias e afetos regionais em escala transnacional. Se Hasler continuar sua campanha entusiástica, poderá transformar-se num embaixador improvável do doce de Treviso, um exemplo de como movimentos individuais podem reforçar vínculos entre as praças esportivas e as cozinhas locais.
Seja pela doçura do primeiro pedaço ou pela força simbólica do gesto, fica claro que, mesmo sob o escrutínio de nutricionistas e técnicos, há espaço para pequenas celebrações que humanizam os Jogos. E, como recorda a rotina do vilarejo, é nesses detalhes que se entrelaçam a memória da competição e a vida cotidiana dos atletas.
Otávio Marchesini é repórter de Esportes da Espresso Italia. Escreve sobre esporte como fenômeno cultural e social, sobretudo na Itália e na Europa.






















