Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Ao lembrar os dez anos da morte do pai, Jessica Fornoni devolve à memória coletiva uma narrativa em que o esporte se confunde com ritual, sociabilidade e pertença. Seu pai, Giacomo Fornoni, foi membro da equipe que conquistou o ouro olímpico na prova de 100 quilômetros por equipes em Roma 1960 — uma vitória que, para Jessica, não se mede apenas pelo metal, mas pelas ligações humanas que deixou.
Giacomo nasceu em 26 de dezembro de 1939, em Gandellino, então parte do território de Gromo. A trajetória esportiva dele atravessa nomes e episódios que contam muito sobre o ciclismo italiano do pós‑guerra: a parceria com Gianni Motta que rendeu o Trofeo Baracchi em 1964; as memórias dos colegas Antonio Bailetti, Ottavio Cogliati e Livio Trapé; e a lembrança de contemporâneos como Mario Baldini, Felice Gimondi e, do lado estrangeiro, a dupla Altig‑Simpson — este último lembrado também pela trágica morte no Mont Ventoux.
“Aquele foi o maior sucesso da sua carreira”, diz Jessica. “Mas papai valorizava mais as relações que nasceram dali: esses atletas tornaram‑se irmãos.” Para ela, essa fraternidade coletiva é o núcleo do que torna o triunfo olímpico memorável — mais do que o valor material da medalha.
Sobre a peça física do troféu, Jessica relata um gesto de preservação e de sentido: após a morte do pai, a medalha foi doada ao Museu do Ciclismo do Ghisallo, conforme sua vontade. “Talvez nem fosse de ouro puro”, ela admite, “mas era bem feita e carregada de simbolismo. Comparada às medalhas modernas, as de Roma tinham um valor simbólico enorme”.
Entre as lembranças mais coloridas está a história que acabou por se tornar quase uma metáfora: antes da prova olímpica, Fornoni foi afastado das noites romanas e enviado a um convento nos Castelli Romani. Privado das festas e irritado com a decisão dos dirigentes, ele passou a noite com as freiras — um episódio que, segundo Jessica, pode ter sido decisivo: “No dia seguinte ele subiu na bicicleta e venceu. Talvez o ressentimento e a concentração tenham virado energia”.
Essa anedota diz muito sobre as tensões do esporte de alto rendimento naqueles anos: controle social, moral pública e a tentativa das instituições de administrar corpos e comportamentos em nome da imagem nacional. A atitude de Fornoni — livre, gozador, mas focado — encarna o contraste entre a vida privada do atleta e o ideal público que se esperava dele.
Jessica descreve o pai como alguém que não gostava de autocelebrações. Voltava sempre a Roma, encontrou motivos para comemorar a vitória e manteve laços duradouros com os companheiros de equipe. Para ela, o aspecto mais profundo do ouro é justamente essa rede humana que sobrevive à carreira e à morte.
Como analista atento às formas culturais do esporte, é relevante notar que episódios como este — a medalha entregue a um museu local, a história contada pela filha, a noite compartilhada com freiras — transformam um resultado esportivo em patrimônio coletivo. O ouro de Roma 1960 é uma narrativa que atravessa gerações, regiões (a presença lombarda de Gandellino ao Ghisallo) e instituições (clubes, museus, memórias familiares).
Hoje, a lembrança de Giacomo Fornoni não se esgota num resumo estatístico. Ela persiste nas conversas da família, nas vitrines do museu e na forma como uma cidade — e um país — continua a negociar seu passado desportivo. É nesse lugar intermediário entre o íntimo e o público que se mede a verdadeira fortuna de uma vida dedicada ao ciclismo.
Jessica conserva, entre orgulho e resignação, a percepção de que o valor das medalhas é sobretudo simbólico: um laço entre tempos, pessoas e territórios.






















