Jakub Mensik, com apenas 20 anos, entrou no radar do tênis mundial de forma inequívoca ao derrotar Jannik Sinner em Doha. A vitória não é um ponto final, mas um sinal claro: há um novo candidato capaz de criar desequilíbrios numa rivalidade que, até agora, parecia restrita aos nomes de elite.
É inevitável traçar paralelos com a trajetória de quem o inspira. Mensik declarou publicamente sua admiração por Novak Djokovic e não esconde ambições extremas — «quero ser número 1 e vencer os quatro Grand Slams» — uma meta que, pela própria envergadura, mistura ousadia e necessidade psicológica. Do mesmo modo que Djokovic forjou-se numa época de titãs, o cenário atual pede jogadores dispostos a assumir papéis disruptivos frente a figuras como Carlos Alcaraz e Sinner.
Nascido em 1º de setembro de 2005, Mensik tem dois anos a menos que Alcaraz e quatro a menos que Sinner. O que mais chama atenção, além da estatura física e do repertório técnico, é o olhar frio do jogador — não de surpresa juvenil, mas de convicção. Em quadra ele demonstra golpes límpidos, potência e profundidade, e fora dela mantém declarações ambiciosas que, em muitos casos, distinguem campeões de meros virtuoses.
Doha assume nesta narrativa um papel simbólico. Dois anos atrás o jovem tcheco participava do torneio quase como um exercício prático na carreira emergente: estudante, conciliava circuitos juniores com aulas à distância e até brincava sobre os atrativos do evento. Agora, no mesmo palco, derrubou o número 2 do mundo. Entre altos e baixos — e alguma sorte de calendário — Mensik já colecionou resultados marcantes, incluindo um título de Masters 1000 em Miami, quando surpreendeu ao bater Djokovic na final, e uma escalada no ranking que o levou do 54º lugar a figurar entre os principais nomes a serem observados.
A trajetória recente mostra consistência: uma sequência de vitórias que, desconsiderando um retiro forçado nos Australian Open antes do encontro com Djokovic, aponta para uma forma ascendente. Ainda assim, a passagem da promessa à regularidade exige mais: continuidade frente às oscilações físicas, gestão de calendário, e a capacidade de vencer sob diversos contextos — desafios que fizeram com que nomes como Shelton, Draper e Musetti ficassem aquém do potencial projetado.
Do ponto de vista técnico, Mensik dispõe de um conjunto sólido: combinação de potência e limpeza nos golpes, mobilidade suficiente para a quadra moderna e uma predisposição mental que o faz jogar com autoridade. Culturalmente, representa uma nova geração do tênis europeu central-europeu, onde a formação ainda convive com modelos pessoais e referências globais — Djokovic sendo a mais evidente.
Como analista, não iludo leituras apressadas. A vitória sobre Sinner em Doha é reveladora, não conclusiva. Porém, ela redesenha possibilidades: a presença de um terceiro incomodador — capaz de alterar dinâmicas de rivalidade entre Alcaraz e Sinner — é um fator que enriquece o circuito. Jakub Mensik é, neste instante, um nome para ser acompanhado com atenção clínica: tem talento, estrutura mental e resultados que justificam vigilância. Resta-lhe transformar episódios em padrão.
Assinado, Otávio Marchesini — repórter de esportes, Espresso Italia






















