Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A trajetória de Jake Canter — 22 anos, nascido nos Estados Unidos — assume nesta quarta-feira um lugar de destaque na memória coletiva dos Juegos Olímpicos de Milano Cortina 2026. Depois de um 15º lugar no big air, o jovem snowboarder subiu ao pódio em Livigno e conquistou a medalha de bronze no slopestyle, atrás do chinês Su Yiming (ouro) e do japonês Taiga Hasegawa (prata).
O que distingue essa conquista não é apenas a execução técnica das manobras, mas o trajeto humano que a precede. Dez anos atrás, Canter sofreu um grave acidente que quase o levou à morte. Em 2016, enquanto praticava saltos num trampolim ao fim de um dia nas pistas, colidiu com outra pessoa durante o ar e sofreu uma fratura craniana severa acompanhada de hemorragia cerebral.
O ano seguinte trouxe novas complicações: crises de dor no ouvido, desmaios e internação. Exames apontaram que a lesão havia provocado vazamento de líquido cefalorraquidiano e desencadeado uma meningite bacteriana. Após alguns dias em coma induzido, os médicos comunicaram à família um prognóstico sombrio — estimaram cerca de 20% de chance de sobreviver.
Decisões cirúrgicas delicadas se seguiram. Os especialistas optaram por remover o tímpano direito e realizaram três operações complexas. A partir dali, iniciou-se um processo de recuperação longo e incerto, no qual o esporte deixou de ser apenas lazer e passou a funcionar como uma válvula de escape e reconstrução identitária para o atleta.
Hoje, ao colocar a medalha no peito, Canter disse: “Incrível estar aqui, com esta medalha no pescoço. Espero realmente ter deixado orgulhoso o garoto de treze anos que estava naquele leito de hospital. Este bronze é para ele e para todos que me apoiaram”. A fala traduz não só alívio, mas a compreensão de que a performance esportiva se encadeia a uma história de risco, cuidado médico e redenção.
Como observador que procura entender o esporte além do resultado, vejo na narrativa de Jake Canter um retrato das múltiplas funções sociais do atletismo contemporâneo: formação de identidade, construção de memória coletiva e demonstração de resiliência diante de sistemas médicos, familiares e institucionais que cercam o jovem atleta. Stádios e pistas não são apenas cenários de competição; são o palco onde se reconfiguram expectativas pessoais e comunitárias.
O bronze em Livigno é, portanto, uma fotografia de coragem e talento, mas também um sinal de como o caminho do esporte moderno depende de redes de apoio — não só técnicas, mas humanas e sanitárias. Para Canter, a medalha sela uma narrativa que começou na adversidade e encontrou no esporte um modo de reconstrução. É, ao mesmo tempo, vitória individual e símbolo coletivo.
Em termos práticos, a prova de slopestyle em Milano Cortina confirmou a consolidação de jovens talentos que navegaram por percursos pessoais complexos e chegam ao ápice com maturidade técnica. O pódio com Su Yiming e Taiga Hasegawa também sinaliza as novas geopolíticas do snowboard, com Ásia e América moldando o centro das atenções num palco europeu.
Para o público italiano e europeu, a história de Jake Canter oferece material de reflexão: a maneira como sociedade e instituições respondem a traumas, e como o esporte pode funcionar como espaço de recuperação e afirmação.






















