Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A trajetória italiana em Milano-Cortina 2026 ganhou contornos quase monumentais nas primeiras duas jornadas: três pódios no primeiro dia e seis no segundo, totalizando nove medalhas (um ouro, dois pratas e seis bronzes) — o maior número de pódios já alcançado pela Itália em tão curto espaço de tempo numa edição olímpica de inverno. Mais do que uma sucessão de resultados, trata-se de um momento de afirmação estrutural do esporte de gelo no país.
O elemento mais simbólico desta sequência vem da patinação artística, com a conquista do bronze no Team Event. Desde as fases iniciais de qualificação a equipe italiana mantinha-se consistentemente entre as favoritas ao pódio, graças a performances sólidas e equilibradas. O segundo lugar de Guignard-Fabbri na dança foi pedra angular para criar a margem necessária diante de concorrentes como a Geórgia e o Japão.
Na reta final, foi o conjunto que selou o êxito: as duplas Macii-Conti, a singlarista feminina Lara Naki Gutmann e o singlarista masculino Matteo Rizzo asseguraram o terceiro lugar nas suas provas, consolidando o bronze coletivo. Em especial, o programa livre de Rizzo, avaliado em 179.62 pontos, foi uma exibição técnica e emocional que fechou a conta e blindou a medalha.
No cômputo final do Team Event, os Estados Unidos ficaram com o ouro (69 pontos), o Japão com a prata (68) e a Itália com o bronze (59). Trata-se da primeira medalha italiana nesta prova por equipes e, ao mesmo tempo, da terceira medalha histórica da Itália na patinação artística olímpica — somando-se aos bronzes de Fusar Poli e Margaglio em Salt Lake City 2002 e de Carolina Kostner em Sochi 2014.
O impacto desses resultados transcende o quadro de medalhas. Inseridos num panorama mais amplo, Macii-Conti, Naki Gutmann, Guignard-Fabbri, Rizzo e a reserva Daniel Grassl (ativo nas qualificações) passam a fazer parte de uma narrativa de consolidação técnica e de investimento formativo que vem se desenhando na patinação italiana ao longo dos últimos anos.
As reações dos protagonistas traduzem o significado do feito. Rizzo disse sentir algo “indescritível” por conquistar uma medalha em casa: “Prender uma medalha em uma Olimpíada significa muito; fazê-lo em casa é algo que não se explica. Estava em transe, deixei-me guiar pela emoção e pelas horas de trabalho com a equipe”. Gutmann, por sua vez, confessou que foi difícil assimilar a dimensão do momento diante de família e amigos, reconhecendo que o suporte coletivo foi decisivo para superar momentos de dificuldade dentro do programa.
Como analista com olhar histórico, vejo nesta jornada italiana uma confluência de fatores: programas técnicos mais consistentes, renovação de talentos e um aparato de equipe — treinadores, suporte psicológico, preparação artística — que começou a colher frutos. As medalhas, longe de serem apenas números, funcionam como sinais de uma mudança de patamar, especialmente em uma disciplina que conjuga técnica, expressão cultural e tradição.
Se o ciclo olímpico é feito de investir hoje para colher amanhã, a sequência de Milano-Cortina 2026 indica que a Itália não apenas entrou na luta por medalhas — ela começou a redesenhar um mapa de referências para a patinação e outros esportes de inverno no país. A pergunta que fica é se essa onda de resultados será convertida em políticas públicas e estruturas de base para sustentar o momentum. Por ora, a resposta olímpica é clara: a Itália escreveu um capítulo relevante em sua história do esporte de inverno.





















