Milano Cortina 2026 ficará sem a presença do Irã nos Jogos Paralímpicos de Inverno. A decisão foi confirmada pelo Comitê Paralímpico Internacional (IPC), que informou que o único atleta inscrito pelo país, o fundista Aboulfazl Khatibi Mianaei, não conseguiu chegar à Itália por motivos de segurança ligados ao conflito no Médio Oriente.
Do ponto de vista institucional, o episódio revela com clareza a tensão entre a lógica esportiva — que busca universalidade e livre circulação de atletas — e as limitações impostas por crises geopolíticas. O presidente do IPC, Andrew Parsons, expressou profunda decepção pelo desfecho, sublinhando que as organizações responsáveis trabalharam intensamente para identificar rotas alternativas e garantir a chegada segura da delegação iraniana. No entanto, com o conflito ainda ativo e o risco para vidas humanas considerado demasiado alto, essas opções se mostraram inviáveis.
Segundo o IPC, a situação foi agravada pela interrupção generalizada dos sistemas de comunicação em boa parte do Irã, o que dificultou o diálogo entre o Comitê Paralímpico Internacional, o Comitê Organizador de Milano Cortina 2026 e o Comitê Paralímpico Nacional iraniano. Em consequência, a autoridade esportiva iraniana comunicou que um trajeto seguro até os Jogos não poderia ser garantido e que, por isso, a participação estava impossibilitada.
Para o atleta, a perda tem caráter profundamente individual e simbólico: depois de anos de treino e de dedicação, ver-se impedido de disputar a sua terceira edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno é um golpe que ultrapassa o plano competitivo. A situação recorda que, para muitos praticantes em contextos de conflito, o acesso ao esporte — e às plataformas internacionais que ele oferece — depende de variáveis externas que nada têm a ver com mérito esportivo.
Como analista atento às interseções entre esporte e sociedade, é preciso destacar duas lições. A primeira é institucional: eventos globais como as Paralimpíadas dependem de infraestruturas políticas e logísticas que são vulneráveis a rupturas externas. A segunda é humana: atletas como Aboulfazl Khatibi Mianaei representam comunidades e memórias, e sua ausência não é apenas um número na tabela de competições, mas uma fratura na ambição coletiva de inclusão que o movimento paralímpico procura promover.
O IPC finalizou a nota demonstrando solidariedade ao atleta e lamentando que fatores alheios ao desporto tenham impedido a sua participação. Resta a reflexão sobre como as organizações internacionais podem reforçar mecanismos de proteção e contingência para minimizar, tanto quanto possível, o impacto de crises externas sobre a participação esportiva. Em última instância, a ausência do Irã em Milano Cortina 2026 é um lembrete duro de que o esporte, por mais universal que aspire ser, permanece imerso nas dinâmicas políticas do seu tempo.






















