Trinta e seis horas depois de ter acendido mais uma fogueira no futebol italiano — e isso num ambiente já saturado por precedentes — o episódio Inter-Juve continua a queimar as bordas do debate público. Entre declarações indignadas, tweets irônicos, críticas emotivas e posts elaborados para atrair cliques, o coro de vozes que se manifestou vai desde dirigentes e ex-jogadores até autoridades do próprio sistema. É imprescindível, contudo, observar os fatos com frieza e extrair dali lições práticas.
O pronunciamento de Comolli e Chiellini no pós-jogo cristalizou qual é o ponto em disputa: o papel do designador. O ataque direto a Rocchi não foi apenas pessoal — ao reunir as queixas de figuras como De Rossi, Gasperini e Conte («ogni settimana ce n’è uno»), a mensagem transmitida amplia o problema para o serviço de arbitragem da Serie A como um todo. A pergunta que se impõe é simples: estamos diante de um problema pontual ou de uma crise estrutural? A resposta, à luz dos fatos desta temporada, inclina-se para o segundo cenário.
É inegável que, desde a implementação do VAR, esta tem sido a pior temporada em termos de coerência: a questão dos toques de mão e do chamado “step on foot” perdeu-se entre interpretações e protocolos mal ajustados; a sensação de que árbitros em campo e os varistas funcionam por conta própria é palpável. Nesse contexto, torna-se difícil compreender por que Rocchi não escolheu um árbitro de perfil internacional para dirigir a partida historicamente mais carregada do nosso campeonato. Sem querer crucificar La Penna — que, após a confusão do intervalo, poderia ter sucumbido emocionalmente na etapa final e, segundo relatos, não o fez — a decisão de escalá-lo expõe o designador a questionamentos legítimos.
Na sua resposta pública, além de pedir desculpas pelo erro evidente, Rocchi também fez uma observação sobre a simulação, dirigindo críticas a Bastoni. Esse gesto amplia a discussão do incidente específico para um hábito mais amplo e repetido, que já foi alvo de nossas observações em outras ocasiões. Basta recordar que, em Como-Fiorentina, dos últimos quinze minutos apenas cinco foram de jogo efetivo — e a simulação de Parisi nesse duelo talvez detenha o recorde de falta de verossimilhança na temporada.
O defensor do Inter, porém, adicionou à contenda uma celebração diante do cartão vermelho atribuída ao adversário — gesto que muitos consideraram deliberado e provocador. Uma velha norma, que previa a advertência para quem solicitasse agressivamente uma punição, parecia amortecer esse tipo de comportamento: hoje, a linha entre jogo psicológico e desrespeito tornou-se mais tênue. Há ainda a referência à tal “maninha de Kalulu“, episódio que, por mais inocente que fosse em sua essência, foi explorado taticamente pelo oponente.
Não devemos, porém, transformar o debate em tribunal moral permanente. Exigir responsabilização é justo; transformar cada deslize num motivo para linchamento público não ajuda a sanar as raízes do problema. Se a Serie A quer recuperar confiança técnica e simbólica, é preciso agir em duas frentes: rever protocolos do VAR e aperfeiçoar a seleção e a formação dos árbitros, incluindo critérios para designações em confrontos de grande tensão. Só assim o futebol, que continua sendo um espelho das nossas contradições sociais e institucionais, poderá reduzir as chamas e voltar a discutir o essencial — o jogo em si.
Em suma, o caso Inter-Juve não é apenas um incidente isolado de uma tarde: é a fotografia de um sistema que pede reformas e clarificações, antes que a repetição de erros corroa de vez a autoridade de quem deve garantir a justiça em campo.






















