Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A noite em que o San Siro foi invocado não evitou a dura verificação de realidade: o Inter caiu diante do Bodø/Glimt e foi eliminado da Champions League. O revés confirma uma tendência inquietante para o futebol italiano nas competições europeias e aprofunda questões estruturais que ultrapassam a simples escalação do dia.
A partida foi a demonstração de como uma equipe bem organizada, disciplinada e adaptada ao seu terreno pode impor limitações a um adversário teoricamente superior. O Bodø/Glimt fez um jogo quase perfeito: proteção compacta no primeiro tempo, paciência para explorar os erros na etapa final e dois golpes clínicos que decidiram a vaga. O gol de Bastoni do Inter veio apenas quando a classificação já estava selada e pouco mudou o destino da eliminatória.
Do lado nerazzurro, a sensação foi de um time que se perdeu entre intenção e execução. Em dois confrontos, duas derrotas que soam como um diagnóstico. A equipe de coppa apareceu como uma sombra da versão competitiva que disputa o campeonato: esforço evidente, mas leitura de jogo excessivamente scolastica, falta de amplitude e insuficiente incisividade nas alas. Mais do que um problema tático isolado, evidencia-se uma fragilidade coletiva — técnica e mental — diante de uma exigência continental.
As ausências pesaram — notadamente Lautaro e Dumfries —, mas não explicam tudo. Outros nomes de referência, esperados para liderar, não corresponderam: Akanji no miolo, Barella no meio e Thuram no ataque tiveram atuações aquém do necessário. E, em campo, a figura de Chivu parecia congelada: o treinador viveu o momento mais delicado de sua gestão, com um plano que não resistiu às exigências da eliminatória.
Além do revés esportivo, existe um efeito simbólico de grande alcance. A Noruega, com figuras como Haaland e seus compatriotas, transformou-se num problema para a Itália também no plano das seleções — obrigando a Azzurra de Gattuso a buscar playoffs e a encarar o risco de faltar a um terceiro Mundial consecutivo. Na Europa de clubes, o perigo real é que a representação italiana nas fases finais se reduza a ponto histórico: ficar fora entre as dezesseis melhores como nunca aconteceu em 22 anos de história da Champions seria um sinal de redimensionamento.
Há, ainda, partidas pela frente que podem reverter parte do impacto: Atalanta e Juventus têm desafios dramáticos — a Dea precisa de três gols contra o Borussia Dortmund; a Juve, de quatro contra o Galatasaray. São confrontos que valem mais do que vagas: são a última trincheira para preservar prestígio, coeficiente UEFA e confiança coletiva.
Para o Inter, o resultado exige uma resposta séria e imediata: mais precisão técnica, maior amplitude de jogo e decisão nas costas dos laterais. Psicologicamente, o clube precisa administrar o trauma e reconectar o elenco a uma identidade que justifique o investimento e as expectativas. O futebol, afinal, é espelho social — e essa eliminação diz muito sobre prioridades, planejamento e resiliência no futebol italiano contemporâneo.





















