Ao atingir o ponto médio dos Jogos, o balanço nos vales do Alto Adige revela uma combinação de êxito logístico e impactos sociais mais complexos. Os números são claros: foram vendidos 88,7% dos ingressos para o biathlon em Anterselva e 90% dos ingressos para o salto com os esquis em Predazzo. Essas percentagens traduzem uma procura elevada, ainda que dissipada em uma paisagem regional onde os efeitos se manifestam de maneiras distintas.
Não é apenas a arena olímpica que colhe os frutos. Todo o território do Trentino-Alto Adige observa um aumento das presenças turísticas, com reflexos na hotelaria, nos transportes e no comércio local. Para a diretora da Azienda di soggiorno de Bolzano, Roberta Agosti, a cidade tem se beneficiado por sua posição estratégica: “se alguém precisa chegar a Predazzo, Milão ou Cortina, Bolzano está no meio do caminho”. Agosti salienta ainda que o período — tradicionalmente mais fraco na temporada — ganhou um impulso importante graças aos Jogos, mesmo que o “tudo esgotado” não se repita em toda a região.
Na valle di Anterselva, palco do biathlon, a ocupação dos hotéis está completa. A Südtirol Arena recebe diariamente milhares de espectadores, e o fluxo automotivo foi um dos desafios iniciais da organização. “No primeiro dia tivemos algumas dificuldades”, admite o prefeito Thomas Schuster, mas ele enfatiza que, de modo geral, a logística funcionou. Há uma alteração clara no modo de chegada: enquanto nas etapas da Copa do Mundo muitos torcedores vêm de ônibus — as agências vendem pacotes com transporte e bilhetes —, nos Jogos Olímpicos a política de ticketing diferente levou muitos a optarem pelo carro. Schuster compara: atualmente chegam cerca de uma dezena de ônibus por dia, contra os 170 habituais para uma etapa de Copa do Mundo; já o número de carros gira entre 4 e 5 mil por dia.
Para mitigar o problema, foi criado um estacionamento provisório para cerca de 1.000 carros nos arredores de Anterselva, o que aliviou os congestionamentos e preservou a circulação nas pequenas localidades. “Os aldeamentos não ficaram bloqueados e se respira uma boa atmosfera”, afirma o prefeito, sublinhando o esforço local para conciliar afluência e habitabilidade.
O presidente dos hoteleiros da Val Pusteria e da Val Badia, Thomas Walch, mostra-se otimista, mas cauteloso: a ocupação plena dos estabelecimentos em Anterselva explica-se pela presença de atletas, jornalistas e forças de segurança. No entorno, o chamado “tudo esgotado” não ocorreu em igual proporção — parte dos hóspedes regulares preferiu não viajar, movida por receios relacionados ao excesso de público. Walch lembra que os benefícios econômicos e estruturais decorrentes dos Jogos tendem a se consolidar ao longo do tempo: algumas obras e investimentos só serão plenamente avaliáveis nos anos seguintes, com marcos importantes previstos para 2027.
Além do impacto econômico, há vozes que apontam preocupações sobre trânsito e uma sensação de militarização do território. Esses elementos convidam a uma leitura mais ampla: os Jogos não são apenas um espetáculo esportivo, mas um acelerador de dinâmicas urbanas, turísticas e políticas que exigem gestão cuidadosa. A conjunção entre alta procura por bilhetes — 88,7% e 90% — e as demandas logísticas revela tanto o sucesso de público quanto os limites de uma região que tenta conciliar identidade local e exposição internacional.
Em resumo, o efeito imediato é predominantemente positivo, com hotéis cheios em pontos cruciais e arenas vibrantes. A verdadeira dimensão dos benefícios, contudo, será medida na capacidade das comunidades locais de transformar corto-prazo de atenção em investimentos duradouros e em um turismo sustentável que respeite a paisagem e a vida cotidiana do Alto Adige.
















