Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, voltou a colocar no centro do debate uma prática recorrente no futebol moderno: jogadores que se cobrem a boca durante discussões ou confrontos em campo. Em entrevista à Sky Sports, Infantino afirmou que atletas que adotam esse gesto e proferem ofensas com teor racista deveriam ser suspensos.
Em suas palavras traduzidas, Infantino disse que “se um jogador se cobre a boca e diz algo que tem consequências racistas, então deve ser suspenso, obviamente. Devemos presumir que ele disse algo que não deveria ter dito, caso contrário não teria necessidade de cobrir a boca”. O tom da declaração evidencia a vontade da direção da instituição de adotar medidas firmes — e simbólicas — na luta contra o racismo no esporte.
O comentário surge no contexto da investigação sobre os incidentes ocorridos em 17 de fevereiro, durante a partida de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões entre Benfica e Real Madrid. O encontro, vencido pelo Real por 1 a 0 em Lisboa, foi interrompido por cerca de dez minutos depois que Vinícius Jr. relatou ter sido alvo de ofensa racista. O atacante do Benfica envolvido na acusação, Gianluca Prestianni, foi suspenso provisoriamente pela UEFA enquanto as apurações estão em curso; o jogador negou as alegações em uma publicação no Instagram.
Do ponto de vista disciplinar e jurídico, a proposta de Infantino – suspender automaticamente quem cobre a boca em momentos de tensão — abre um leque de implicações. Por um lado, funciona como medida preventiva e sinal político: reduz a zona cinzenta em que o comportamento passa sem resposta e protege potenciais vítimas de agressões verbais que muitas vezes ficam sem provas documentais. Por outro, toca em princípios fundamentais do processo disciplinar: presunção de inocência, necessidade de prova e proporcionalidade da sanção.
Enquanto repórter e analista, entendo que a discussão não é apenas sobre um gesto isolado. Estádios e competições são arenas culturais onde a memória coletiva se constrói e se confronta. Medidas que punem gestos simbólicos — como cobrir a boca — têm força pedagógica, mas precisam ser integradas a um sistema de investigação robusto que preserve garantias processuais e evite decisões precipitadas que inflamem ainda mais a contenda pública.
A questão também remete à responsabilidade institucional: clubes, ligas e federações devem investir em tecnologia, formação e políticas claras para lidar com assédio e discriminação. Sanções exemplares podem ter efeito dissuasor, mas a transformação cultural depende de iniciativas contínuas fora do campo — nas categorias de base, nos programas educativos e nas relações entre clubes e torcidas.
O caso Prestianni-Vinícius continuará a ser acompanhado de perto, tanto pela opinião pública quanto pelas entidades disciplinares. Independentemente do desfecho específico, a declaração de Infantino recoloca na agenda pública uma pergunta que atravessa o futebol: como equilibrar punição, prova e prevenção para erradicar o racismo sem comprometer as garantias processuais?
Enquanto as investigações prosseguem, a comunidade do futebol observa: decisões tomadas agora poderão estabelecer precedentes institucionais que marcarão as próximas décadas do esporte europeu.






















