Ilia Malinin, aos 21 anos, transformou-se em protagonista incontestável do circuito do patinação artística. Em Milano‑Cortina, a expectativa convertida em lotação esgotada não é apenas pelo resultado esportivo: é pela possibilidade de ver, ao vivo, um símbolo de mudança técnica e cultural na disciplina — o célebre quadruplo Axel e a performance completa de um atleta que se apresenta como rock star do gelo.
Malinin entrou para a história em 2022, quando, com apenas 17 anos, foi o primeiro a concluir em competição pública o quadruplo Axel, salto que exige quatro voltas e meia no ar. Mais do que um feito atlético isolado, esse salto encarna a transformação da patinação: de arte dominada pela elegância para uma disciplina em que a acrobacia técnica ocupa papel central nas pontuações e na atenção do público.
O repertório de Malinin também traz referências históricas e gestos de rebeldia que marcaram o esporte. A lembrança da francesa Surya Bonaly, que executou um backflip nas Olimpíadas de Nagano em 1998 — gesto fora das regras que, ainda assim, ficou registrado na memória coletiva — serve para lembrar que o gesto técnico pode também ser ato simbólico. Hoje, o backflip permanece proibido nas competições oficiais da ISU, mas sua lembrança preserva uma camada de significado sobre identidade e contestação no gelo.
A trajetória pessoal de Malinin ajuda a compreender sua dimensão simbólica. Filho de pais patinadores que emigraram da União Soviética via Uzbequistão até os Estados Unidos, Ilia nasceu em 2 de dezembro de 2004 e traz no seu currículo uma combinação rara: técnica elevada, presença de palco e estratégias de construção de imagem. O apelido autoatribuído, “Quad God”, e a crescente presença nas redes sociais — agora com a projeção de alcançar cifras próximas ao milhão de seguidores, impulsionadas pela visibilidade de Milano‑Cortina — escancaram a profissionalização da persona do atleta moderno.
No entanto, essa projeção também atrai críticas. Comentários que o classificam como “arrogante”, “impertinente” ou “sopravvalutato” circulam com frequência, sobretudo em ambientes digitais. Para além da anedota, essas reações apontam a tensão entre tradição e renovação: a patinação artística sempre equilibrou técnica, graça e interpretação; quando um jovem atleta polariza em direção à técnica extrema e ao espetáculo exacerba-se o debate sobre o que a modalidade deve preservar.
Em quatro minutos de programa, Malinin condensa várias camadas do esporte contemporâneo: o salto que redefine limites físicos, a expressão performática que busca envolver plateias mais amplas e um cuidado estético — desde figurinos com aspecto de “guerrero” até microgestos encenados — que transforma a apresentação em show. É esse conjunto que explica a lotação esgotada em Milano‑Cortina e a atenção midiática em torno de sua presença nas Olimpíadas.
Mas o episódio também exige leitura política e institucional. A revolução técnica que abriu espaço para atletas asiáticos nas últimas décadas foi aprofundada pela exclusão de competidores russos de várias competições internacionais — um fato que redesenhou hierarquias e narrativas do esporte. O caso Malinin ilustra, portanto, como resultados individuais se imbricam a mudanças sistêmicas: regras, pontuações, movimentos populacionais e decisões políticas configuram juntos o cenário competitivo.
Como repórter e analista, lembro que o significado de um salto, de um gesto ou de uma expressão não se esgota no ápice do giro. O que Ilia Malinin traz a Milano‑Cortina é a chance de observar o esporte como espelho: reflete tendências técnicas, escolhas identitárias e disputas por atenção cultural. Resta saber se, quando as luzes se apagarem e o público for embora, o legado que ficará será apenas um número de seguidores ou uma página nova na história da patinação artística.
Otávio Marchesini, Espresso Italia — análise desde a interseção entre esporte, cultura e história.






















