Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O jovem campeão norte‑americano Ilia Malinin, conhecido como o “Quad God”, abriu um pouco do interior da sua experiência depois da prova livre que o deixou fora do pódio em Milão‑Cortina. Em um vídeo publicado no Instagram, o atleta intercalou imagens de seus momentos mais brilhantes no gelo com uma fotografia em preto e branco em que aparece com a cabeça entre as mãos, e utilizou a publicação para atribuir o seu fracasso não apenas à técnica do dia, mas a uma conjunção de fatores psicológicos externos.
Malinin — que vinha de uma invencibilidade nos quádruplos que durou mais de dois anos e de dois títulos mundiais consecutivos — sofreu uma queda abrupta na classificação: do favoritismo absoluto a um oitavo lugar improvável. No programa livre do dia 21, errou o quadruplo Axel tornando-o um salto simples, caiu duas vezes e apresentou dificuldades com os demais elementos que constituem sua especialidade. Ainda assim, permanece o fato de que o jovem de 21 anos havia conquistado um ouro no Team Event, competindo ao lado de sua equipe.
Mais do que relatar erros técnicos, a publicação concentrou‑se na dimensão humana do episódio. Malinin falou claramente sobre a pressão de estrear em Jogos Olímpicos e sobre o efeito corrosivo do ódio online. “No palco mais alto do mundo, quem parece mais forte pode ainda lutar batalhas invisíveis por dentro”, escreveu. “Lembranças felizes podem ser envenenadas pelo ruído de fundo. O ódio vil na rede ataca a mente e o medo arrasta‑a para a escuridão, por mais esforço que se faça para manter a lucidez sob uma pressão imensa e sem fim. Tudo se acumula enquanto esses momentos passam diante dos olhos, culminando em um inevitável colapso.”
Ao mesmo tempo em que reconhece a complexidade de sua relação com o treinador — que também é seu pai — e reafirma a importância do tema da saúde mental no esporte, Malinin anunciou que oferecerá mais detalhes sobre essa experiência no sábado, data do tradicional galã das Olimpíadas (21 de fevereiro de 2026), evento que costuma reunir os maiores destaques da competição. O show terá a presença de figuras como a icônica Carolina Kostner, e espera‑se que Malinin seja convidado, apesar do resultado aquém do esperado.
Minha leitura enquanto observador: a queda de Malinin transcende a falha técnica. É um recorte da era em que o atleta moderno precisa negociar não só a execução de movimentos de altíssima complexidade, mas também a exposição contínua a julgamentos imediatos e frequentemente iníquos. Estádios e pistas sempre foram espaços de exibição — hoje, essa exibição ganha uma extensão digital que amplifica efeitos psicológicos e remodela narrativas coletivas.
Ao preservar os factos — desde o erro no quadruplo Axel até a medalha de ouro por equipas —, é importante perceber que a história de Malinin não se reduz ao episódio de Milão‑Cortina. Resta, sim, a necessidade de um debate sério sobre proteções, suporte psicológico e a responsabilidade das plataformas digitais e das comunidades que orbitam o esporte.
Em breve, com a revelação prometida pelo próprio atleta no dia 21, teremos elementos novos para avaliar o episódio na sua totalidade. Até lá, a publicação de Malinin funciona como um apelo contido: campeões também são vulneráveis, e a vitória não apaga a necessidade de cuidado.






















